quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O Shampoo


Fazia quatro anos da última vez que a havia visto, depois disso nenhum contato. Fazia quatro anos, mas, mesmo não sendo tanto tempo assim, parecia que tinha sido um século.
Com certeza ela estava mudada e ele também.
Observou-a enquanto esta falava e percebeu que ainda restavam algumas manias antigas na fala da garota. Definitivamente ela não havia perdido seu encanto, porém ele sabia que as coisas estavam diferentes.
Sorriu por dentro, agora ele já podia falar com ela sem aquele incômodo frio na barriga e sem o nervosismo que o fazia suar as mãos toda vez que se aproximava um pouco mais.
Escutou-a falar até a hora da despedida. Até que, inesperadamente, a menina o abraçou. Tchau, Fernando. Seus cabelos foram transportados até perto do nariz deste.

O cheiro.
Tudo ao redor... E o cheiro, tão suave e tão imponente.

O reconhecimento.
Uma aproximação tímida há quatro anos, o vento, cabelos balançando e... O mesmo cheiro.

A menina se afastou e sorriu-lhe antes de se virar e partir. Fernando continuou paralisado, preso por um pensamento...

O pensamento.
Ela nunca trocou de shampoo.

Um sentimento.
Bastou-lhe um cheiro para esfriar sua barriga. O cheiro de uma adolescência. O cheiro de um amor verdadeiro.

PS.: Imagem retirada do site deviantart.com, assim como todas as outras xD, mas eu sempre esqueço de colocar o link, excusez-moi.

sábado, 3 de novembro de 2007

Rotação



Todo dia sento em uma parada e espero...

Se observo um ônibus passar no sentido oposto, me alegro. Pronto! Era o sinal de que precisava para me encher de esperanças... minha espera diária estava quase no fim!

Quando minha espera se encerra, não vejo, mas outra pessoa toma meu lugar. E quando um ônibus passa no sentido contrário talvez também se alegre. Sua espera já está quase no fim.

E quando esta segue, sem ninguém saber, outra pessoa toma seu lugar e outra e outra e outra...

Percebi, então, que não vivíamos de 24 em 24 horas.

Claro que não! Nesse momento, percebi que a nossa vida era composta de vários ciclos, não ciclos individuais, mas ciclos conjuntos, como uma brincadeira de roda sem mãos dadas... Percebi apenas o microcosmo da espera pelo Recanto dos Vinhais, e desse ciclo posso afimar: a vida se repete de 15 em 15 minutos.

(Ps.: É até um paradoxo uma imagem tão estática e um título tão estonteante)

sábado, 27 de outubro de 2007

Discussão


- Mas eu pensei...
- PENSOU?!! É EXATAMENTE ISTO QUE ESTOU LHE FALANDO. Não pense. Não I-M-A-G-I-N-E. - disse o tutor enquanto a olhava de forma furiosa.
- Des... desculpe. Eu não qu...
- Francamente, eu nunca esperaria isso de você. Não nas circunstâncias em que nos encontramos, no mundo de hoje.

Dessa vez a menina decidiu não falar. É, é claro que eu estou errada. Virou a cabeça para a janela, mas se arrependeu quase que imediatamente. Lá fora a multidão ainda gritava: PARE DE IMAGINAR! PARE DE IMAGINAR! E a polícia já havia até isolado o seu prédio, mas obviamente não concordavam com o que ela andava fazendo. Não no mundo de hoje.

Uma lágrima fujona quis a todo custo vazar dos seus olhos, mas foi detida no cantinho do seu olho. Ao que parecia todo o mundo estava furioso com ela. Na televisão já se falava que o jugamento estava marcado para o dia seguinte.

Se eu conseguisse sair dessa... Mas como? Não, não há nenhuma forma. Afastou o cabelo dos olhos e implorou para que a voz do seu tutor parasse de girar na sua cabeça: "Não pense".

Arriscou um segundo olhar para fora e desvio-o vagarosamente da multidão, que aprovava em uníssono a nova Lei mundial. Olhou para o céu cinza e percebeu uma pequena mancha amarelada que se aproximava cada vez mais.

- PARE DE IMAGINAR! PARE DE IMAGINAR! - A multidão gritou mais alto e a mancha amarela voltou aflita para o seu esconderijo onde os olhos na janela não poderiam mais vê-la. A multidão continuou a aumentar o tom das vozes e a garota levantou as mãos para segurar a cabeça, parecia que ia rachar!

Enquanto isso, em um ambiente muito menos caótico...

- Marcelo? Marcelo? EI MARCELO!!
- HAN? HAN? Oi, desculpa, eu acho que cochilei. - Disse o menino empertigando-se e aproximando mais o telefone do seu ouvido. Pelo visto a discussão vai recomeçar...




sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Monólogo de Lee


"Não entendo porque os ônibus tanto me fascinam... Não são apenas as pessoas mudas e ausentes ao meu redor e a indiferença que colide com a minha face mesmo que a janela esteja fechada.
É sempre bom uma janela aberta, através dela posso fingir que vejo o mundo que passa e esqueço a indiferença que sempre bate na minha face... Até o vento que entra forte pela janela, esquecendo que eu estou aqui, dói menos!
Um dia eu canso de olhar para a janela e pergunto pro garoto que senta lá atrás o que ele tanto lê naquele texto.
Os Ônibus são chatos!
Às vezes eu lembro do poema de Carlos Drummond em que tudo passa de vagar: "eta vida besta meu deus!" é o que eu digo junto com ele. Mesmo que nem sempre passe devagar e que os carros nas pistas corram velozmente, não deixa de ser besta. Talvez o lugar em que Carlos Drummond falava fosse muito menos besta que esse.
Os ônibus também são legais!
Quando encontro cadeiras viradas para trás eu sempre digo "Isso é poético", eu acho pelo menos! Eu fico olhando para trás sem saber o que tem pela minha frente... Isso é bem a minha cara, eu vivo me despedindo do passado tentando captar com um último olhar tudo que meu sentido me permite: por onde andei, quem olhei, quem me viu, quem sorriu e tudo que fez parte da minha vida apenas pelo tempo que passei ali, sentado no ônibus.
Um dia eu pensei em escrever um livro sobre uma garota pura que fazia as águas de um mar cinzento brilharem alegremente quando ela passava de ônibus... Isso acontece comigo e com todo mundo que parar pra perceber o efeito que a luz dá na água, mas é mágico mesmo assim. Pensei em escrever isso por algum tempo até que encontrei aquela senhora...
Não entendo se foi o destino brincando com a minha cara, mas acredito que sim. A senhora desconhecida de mais ou menos 60 anos sentou atrás da minha cadeira com uma amiga e resolveu ler um texto que tinha escrito... Era simples, singelo, inteligente e verdadeiro! O primeiro que ela leu falava sobre o sorriso, não lembro exatamente as palavras, mas sorri enquanto ela lia. A amiga dela não pareceu impressionada, mas ela resolveu ler outro, dessa vez sobre um sino. Esse não me impressionou, bem escrito era, mas... ei, peraí, quantas pessoas escrevem sobre sinos? Guardião do Tempo, ela o chamava divertidamente: "engraçado, não acha?".
Ahh, que mulher! Não queria ter o sotaque dela, mas queria saber escrever sobre tudo, até sinos!"

terça-feira, 28 de agosto de 2007

O Prefeito reclamão

Havia uma cidade que era gorvernada por um esquilo. Este esquilo era esperto, letrado e tinha um raro gosto por pinturas surrealistas, mas tinha um GRAVE defeito...
Não havia dúvida que nenhum prefeito havia sido melhor que aquele, mesmo que a cidade nunca confessasse isso e mesmo que não aparecesse nos outdoors ou nos jornais.
Mesmo sendo muito bom, e tendo o amor daquela pequena cidade, o prefeito por achar que dava o máximo de si, sempre exigia muito da cidade: ele reclamava porque os habitantes ainda jogavam lixo em algumas calçadas, porque as crianças estavam quebrando as vidraças, porque a parede da prefeitura estava descascando, porque as árvores não estavam no tom de verde que deveriam estar, porque os pássaros tinham pego uma gripe, porque os imigrantes não viajavam muito pra lá, entre outras milhões de coisas.
Um dia apareceu um rato metido a pilantra e enganador, estudou a cidade por alguns dias e bolou o seu plano. Reuniu os habitantes e perguntou se já não estava na hora de uma eleição, se não queriam um novo prefeito. Como todos amavam o prefeito, apesar de não apertarem sua mão nas passeatas, todos disseram que não.
Mas o rato não estava nem aí, lançou sua candidatura e que surpresa!
Ganhou a eleição.

E comandou bem. E mudou aquela população apenas com seu jeitão de "não estou nem aí, pois eu sei que vai ser como eu quero". E o que ele queria, era o que a população sempre desejou: deixar de ser atrapalhada e construir uma linda cidade.

O bom esquilo nunca entendeu bem porque a cidade não colaborou com ele... Logo ele, tão paciente e tão bom!
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