Não sei precisar em que momento
da minha vida me tornei essa pessoa que cola coisas na parede, mas sei que de
janeiro para cá, os cartões postais e os calendários passaram a dividir o
espaço branco e texturizado das minhas paredes com uma meia dúzia de post-its. No começo, os post-its eram lembretes de insights que eu tinha durante os estudos
ou avisos de algumas tarefas geralmente acadêmicas, mas, em março ou abril,
comecei a sentir que precisa de mais. Precisava de inspiração.
O ruim de precisar de inspiração
é que você percebe que, sem ela, também se torna árdua a tarefa de escrever
coisas que inspirem. Passei, então, uma tarde enchendo o saco de umas amigas no
whatsapp e perguntando que
pensamentos as animavam nos dias mais tristes. As respostas foram tão longas,
que acabei desistindo e optei por escrever o clichê necessário nos meus
pedacinhos de papel. Não sei se foi útil, visto que, uma vez escritos, eu parei
de precisar deles e raramente olhava para a parede. Até outro dia, quando o
comentário de uma pessoa que nunca tinha estado no meu quarto antes me fez
lembrar da existência deles. Ter a experiência de ouvir alguém lendo as suas
frases motivacionais é sem dúvida interessante e foi algo que ficou na minha
cabeça.
Entre as frases, eu tinha
escolhido escrever “Nobody said it was
easy”. Essa não é uma das minhas músicas preferidas, não sou fã da banda,
mas, mesmo antes de escrever, me pegava repetindo isso ou cantarolando essa
música enquanto lavava a louça. Na mesma época que isso acontecia, eu também
estava ouvindo muito uma banda chamada Morphine
e eu adorava a canção Scratch,
especialmente a parte que dizia “I lost everything I had/ I'm starting over
from scratch”. Mas esse era um trecho que eu cantava quando eu queria me
lamentar mesmo. Então eu pensava: estou
começando tudo do zero, que merda! E pensava isso especialmente em relação
aos meus relacionamentos amorosos.
Mas me lembrar que “ninguém disse
que seria fácil” tinha o efeito oposto. Não me deprimia. Me lembrava de que ser fácil não estava no contrato.
Então, por que eu deveria nutrir expectativas
irreais? Também gostava dessa frase porque servia para tudo: para o amor, para
o trabalho, para a academia, etc.
Mas quando outra pessoa a leu em
voz alta, ela me deixou bem triste. Pois me fez pensar em como eu estava
olhando para os meus relacionamentos. Me fez pensar nas pequenas, porém mais
recentes, feridas. Me mostrou como eu achava que tudo estava sendo muito difícil.
Sabe, aquilo de encontrar alguém que estivesse na mesma sintonia, no mesmo
momento, de peito aperto, de não precisar pensar no que iria dar, de nem
perceber que aquela pessoa se tornou uma presença diária, de chegar no momento do
relacionamento em que um vira para o outro e fala “Precisamos de uma frigideira
nova, essa perdeu o antiaderente”.
Tudo era muito difícil. E eu
estava completamente desanimada só de pensar no que eu teria que passar para
chegar nessa fase. E lembrei que tinha falado muito e também escutado dos meus
amigos: nunca mais vou encontrar alguém
que me ame. Às vezes era ótimo pensar isso, porque tirava uma ansiedade
imensa da vida. Mas, na maioria das vezes, estávamos bem desanimados mesmo.
Encontrávamos pessoas fantásticas
que nos cativavam, mas algo na equação dava errado – sem entrar no mérito do
que é “dar certo” – e, então, elas saíam da nossa vida. Porque queriam coisas
muito diferentes; porque não sentiam que era o momento certo; porque alguém não
estava tão interessado assim; porque urano estava na casa cinco ou qualquer
coisa do tipo. Confesso que muitas vezes me peguei pensando que nunca ia
encontrar outro alguém para cantar duetos da Disney comigo, ou para tentar me seduzir dançando, ou para sugerir
a mesma posição ao mesmo tempo, ou para dançar funk comigo sem pensar que as
pessoas ao redor provavelmente estavam nos julgando muito (mal). Mas enumerar
todas as coisas que pensei que nunca mais ia encontrar me fez perceber como as
pessoas que passaram pela minha vida, rapidinho ou demoradamente, tinham me
proporcionado experiências tão legais que eu adorava relembrar e contar. E em como
eu sempre pensava que ter determinada coisa em um relacionamento era importante
até alguém novo me mostrar que haviam outras coisas que podiam ser igualmente
ou mais importantes.
Ps.: O título é uma adaptação de uns versos da música Insight do Jaloo que passei o dia ouvindo!
