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domingo, 10 de abril de 2016

Gatinho, gatinho

Parte I


Nossos olhos se cruzaram por breves segundos antes que eu desviasse. Acho que nem o percebi direito. Mas dentro de mim, algo do inconsciente, deve ter providenciado aquele desvio de rota para que eu não pensasse em ousar realmente olhar em seus olhos, ou pior, sentir vontade de levá-lo comigo. Ele não era um gato insistente. Quando finalmente liguei a imagem dos olhos amarelos com o todo, o homem, o gato, e me voltei para olhá-lo, continuava calado, volta e meia dava uns passos em minha direção, parava, e me lançava mais um olhar inexpressivo.

Perguntei para o garçom se a mesa da calçada estava desocupada. Lugar para dois, por favor. Sentei, ele sentou ao meu lado. Pedimos cervejas para começar. Contei que não sabia beber aos poucos e fui enxugando o meu copo. Ele, de boquinha minúscula e bigode farto, sorria, me lançava olhares e ia bebericando no seu próprio copo. Ficamos bêbados. Parei de beber logo, pois bebia rápido. Mas ele, lentamente, ia enchendo a nossa mesa de garrafas vazias de Original. Volta e meia se distanciava um pouco da mesa e ia andando silencioso para mais perto da rua, onde fumava um cigarro, olhando para a frente, com sua seriedade de gato.

Perguntei se queria ir embora comigo. Disse que sim enquanto me lançava mais um olhar felino. Fomos direto para a cama. Disse onde ele poderia ficar sem correr o risco de ser esmagado e garanti que podia pegar um pouco da minha coberta. Desmaiei de sono, pouco após senti-lo se aproximando, colando a cabeça peluda em meus cabelos e se aninhando junto a mim.

De manhã, mal abro os olhos e já sei que seu corpo quente está desperto. Sinto uma pressão contra a minha bunda. Solto um gemido para avisar que acordei. Ele cheira e acaricia as minhas costas. Em pouco tempo, está por cima de mim. Silencioso e quase inexpressivo. Vem passeando com as patas pelo meu corpo e pela cama até se posicionar de forma que sua cabeça ficasse exatamente acima da minha. Me lança o olhar amarelo. Me dá beijos com sua boquinha. Às vezes tenho que parar para afastar o bigode, mas continuamos. Tudo é silencioso e lento nessa relação. Por vezes, eu estranho, mas logo sou invadida por uma sensação de conforto e aconchego. Começamos a transar e me pego pensando que não era assim que eu imaginava um gato fodendo. Nas aulas do curso de veterinária, falávamos de pênis com espinhos e gatos que seguravam suas fêmeas pelo pescoço para evitar que escapassem. Ele não procura essa posição e também não mostra as presas. Dá miadinhos quando está achando mais gostoso e parece todo dengoso.

Depois, descansamos. Ainda na cama. Ainda cheios de preguiça, feito gatos. Comento que achava que ele devia morder meu pescoço, que era uma prática obrigatória dos gatos. Ele ri. Falo do pênis também. Digo que não senti os espinhos. Não são espinhos mesmo, ele explica, o pessoal dos livros exagera. Levantamos e começamos nosso dia lentamente. Saio andando pela casa, sem saber bem o que fazer, como em todos os domingos. A diferença deste é que ele me acompanha. Sai andando atrás de mim, satisfeito e animado. Tudo na casa é novidade para ele. Brinca ao redor dos meus pés enquanto lavo a louça e cozinho algo. Deita no sofá, me esperando para assistir TV. Me junto a ele, que fica me esquentando no sofá, esfregando a cabeça em mim e pedindo carinho eventualmente. Às vezes, começa a pedir carinho com mais insistência e a me lançar aquele olhar indiscreto novamente. Então eu o expulso do sofá e ele sai se espreguiçando e rindo, dizendo que vai na lavanderia vigiar os penduricalhos dos vizinhos e fumar um cigarro. Ou, outras vezes, deixo que venha me dar uns beijinhos e acabamos, silenciosos, indo deitar em outro lugar.

Tento fingir que sou gata. E ele assume o papel de homem. Tento ser felina e ele se delicia, achando graça. Você é muito coelha, ele gosta de lembrar. Eu protesto. Coelho não faz barulho. Ele goza e ronrona.

Parte II


Meus olhos passeiam pelas janelas dos vizinhos, mas voltam ansiosos para vê-la na cozinha, lavando a louça da véspera e cozinhando. Seus movimentos em frente à pia, o barulho da água jorrando e o cheiro da comida convidam meus sentidos a passearem por aquele pequeno cômodo. Encostado na janela enquanto espero o cigarro se consumir, olho para sua bunda, a parte dela que a camiseta deixa revelar. Sempre achei sedutora esta combinação de camiseta e calcinha, perdi-me inúmeras vezes em jogos de sedução feminina quando me provocavam e me faziam imaginar que estavam vestidas assim.

A bunda dela, magra, com nádegas de curvas sutis, engole a calcinha. O tecido leve e transparente revela a pele branca coberta. Ela lava, cozinha e seus quadris lembram os movimentos da noite, os modos como ela foi me trazendo para dentro dela, me engolindo. Gata feroz, penso...não, seu jeito não é rude, selvagem. Senti-a ronronar enquanto meu peito deslizava pelas suas costas, corpos lado a lado na cama, ela apertando minha bunda e trazendo com sua mão meus quadris para próximos de si, para que se encaixasse no meu corpo, meu pau obediente iniciando mais um acasalamento na noite.

Deve ser mesmo este o mistério das felinas. Ferozes, nos envolvem com um encantamento que nos tira as forças. Aos poucos vamos nos entregando aos desejos que elas semeiam por todo nosso corpo. Ai... ao pensar assim, recordo-me de como sua língua percorreu meu corpo, mexeu com minhas intimidades, invadiu segredos, dominou-me com este deslizar úmido e penetrante.

Não há muito tempo para perder-me em lembranças, pois a ver assim, agora, com sua camiseta branca levemente molhada e delineando os peitinhos miúdos, faz com que eu me aproxime. Começo a sentir seu cheiro lembrando-me o suor da véspera. Ouço o sussurro de um cantarolar no movimento da respiração que me faz desejar novamente mergulhar-me em seu hálito. Meu corpo toca o seu, ela reage como se sentisse surpresa com meu pau encostando em sua bunda. Abraço-lhe e seguro suas mãos molhadas de água e sabão. Ela vira o rosto para falar algo, mas as palavras são engolidas pela minha boca. Um contato assim, tão intenso, parece um princípio de gozo, mais um.

Estamos presos a um tempo ansioso, diminuto: rapidamente arremesso nossas roupas para um canto da cozinha e vou em busca desses peitos mínimos, pujantes, os bicos saltando em minha direção. Mamo minha gata de pé como se fosse ao mesmo tempo seu macho e seu filhote, ambos atrás do alimento que nos saciará por alguns momentos. Sinto suas garras afiadas nas minhas costas... uhhh, com o reflexo da dor, avanço meus quadris e meu pau desliza por seus pelos pubianos fartos, aninha-se na sua buceta. Que prazer sem medida é sentir seu sexo molhado lambuzar meu membro! Penetro, mas sou subjugado. Macho, sou fêmea que entrega seu prazer para o deleite da minha amada, nossos gozos se derramam pelos nossos sexos, pernas, gotas molhando o chão. 


Toraji Ishikawa


Esse texto é uma colaboração minha (Parte I) com um amigo-escritor, Rafael dos Santos (Parte II).

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

No que eu penso quando penso em sexo

Sexo é uma imagem. 

Tentava escrever um conto erótico, mas sempre se impacientava com a ideia daquelas descrições demoradas. Beija boca, beija peito, aperta mamilo, beija boceta, lambe boceta, molha o pau na boca, enfia assim, enfia assado, fala isso, faz aquilo. Não! Não achava que sexo era isso. 

Apesar de muitas vezes ter se flagrado excitada lendo livros eróticos, de todo o tipo de reconhecimento literário _o desejo é um cara que não se liga muito em qualidade literária, sejamos francos_, não achava que conseguia escrever uma aventura erótica naqueles mesmos moldes. O que a impedia era ela... e o leitor. Não o conhecia bem. Não sabia do que ele gostava. Apesar de as danças sexuais nunca parecerem variar tanto, ela tinha receio de detalhar algo que não o excitasse. Mas, para descobrir o que o excitava, tinha duas opções: ou fodia o leitor ou, e esta segunda opção parecia mais promissora, revelava o pensamento que nunca antes expressara...

O de que o sexo é só uma imagem. Não que ele seja sempre igual ou mesmo imóvel, veja bem. Mas o enredo do sexo está só em um detalhe. Em Nabokov, sexo era a marca do elástico do short na barriga de Lolita. Um short com elástico cuja infantilidade gritava aos olhos do leitor. A marca do elástico que a retirada do short revelava. Depois tanto fazia, se olhava, se beijava, se chupava, se cutucava... O erotismo tinha ficado ali, na barriga marcada pelo elástico do short.

Para ela, o sexo em Bataille também estava em uma imagem mental, que não era o olho ou o ovo ou o culhão. Elegia para si a imagem do prato com leite. A personagem sentava no prato e nada mais importava. Quem olhava por baixo ou se filetes de leite lhe escorriam pela perna.

Por isso lhe parecia tão difícil escrever um conto erótico. Não tinha paciência para as preliminares. Para as descrições, para os enredos, para as ações sequenciadas. Tudo podia dar no mesmo _na morte do gozo_ ou em nada. Mas o que importava era a imagem. No começo, no meio ou no fim. Cada trepada se resumia a uma imagem.

Mas para escolher a imagem, voltava para o leitor. Ainda era preciso fodê-lo. Ou imaginá-lo. E, finalmente, masturbar suas palavras. Escolheu para si um leitor lindo, moreno, ator de televisão_qualquer correspondência com a realidade é mero acaso. E a imagem... bom, podia ser uma mecha de cabelos arrancada. O suor escorrendo em profusão. A cama batendo insistentemente na parede. O vizinho na janela. Podia ser o ímã que fazia os corpos se colarem com facilidade. Podiam ser os olhos... 

Mas era a língua. Era a posição da língua dele. Era a forma como ela podia ser vista, entre um gemido ou um arfar, meio esparramada e meio pronta pro ataque. Era ela quem dava o comando. Olhando para a língua, era possível adivinhar o olhar dele e o próximo movimento. Ele se inclinando para mais perto dela. O beijo molhado. E já não se sabia se eram as línguas e as salivas que os molhavam da cabeça aos pés ou se era suor e outros líquidos.

Sentiu-se satisfeita. No papel, as palavras eram fragmentadas, mas, no pensamento, a simples imagem da língua úmida e suculenta_ que adjetivo para uma língua!_, fazia o plano correr em sequência.

Ela era toda suspiros, ele era todo...língua. 



terça-feira, 14 de julho de 2015

Alguém não está tão interessado assim

- E o que aconteceu nesses dois últimos encontros?
- Bom, foram legais. A primeira quis continuar e eu não. Aí foi bem chato até. Porque ela ficou me mandando mensagem e tal...
- E a segunda?
- A segunda foi o contrário - ele disse desviando o olhar para a cerveja.

Nós dois rimos do constrangimento dele, antes que os pensamentos viessem inevitavelmente nos incomodar. E a gente? Quem iria querer continuar e quem iria sumir? Felizmente, o momento durou pouco. Ainda tínhamos questões mais sérias para nos preocuparmos. Ainda faltava acontecer. Faltava ser bom. Faltava alguém ter um interesse maior do que aquele que tinha nos levado àquele encontro. Só então começaríamos a disputar nossos papéis.

***
- Sempre acaba mal, Seane.
- Por quê?
- Porque as mulheres, não sei o que elas têm, mas é só dizer pra elas que não 'tá procurando relacionamento ou que se rolar algo provavelmente não vai se tornar um namoro, que elas ficam loucas! Parece que elas querem a qualquer custo te conquistar. Deve parecer um desafio pra elas.
- Ah, não, não dá pra simplificar assim. - Eu disse. Mas mentalmente dizia "ei, olha eu aqui, seu babaca! Claro que não tô com você porque você parece um desafio, é porque eu me divirto saindo com você".
- Pior que dá - ele continuou. - Em algum momento, elas sempre ficam loucas. Por mais que elas digam que não esperam nada além daquilo, que é só uma saída mesmo, elas 'tão esperando.

Uma pausa.

- Eu não espero mais que isso, mocinho - eu me incomodava com a sensação de que toda a conversa era uma indireta.
- Não sei... Uma hora isso tem que acabar. Sabe, não quero te machucar... - Era oficial: ele me colocava na posição da pessoa que estava interessada.
- Não vai me machucar - respondi em tom tranquilizador, começando a achar graça da aparente certeza dele de que eu estava apaixonada.

Ele me machucou. E, por algum tempo, cheguei a abaixar a cabeça e concordar que ele estava certo. Eu tinha me deixado levar por um desafio. Não o desafio de domá-lo. Mas a birra de querer provar a todo custo que eu não queria conquistá-lo. Que eu não queria ultrapassar a barreira que ele sempre colocou nos nossos contatos. Que, na verdade, a minha vontade era de destruir aquele muro a chutes, socos e pontapés. Era de gritar indignada contra aquele tratamento. Para ele parar de me tratar como se eu precisasse saber que a gente não ia namorar. Eu sabia. Para ele parar de ignorar que nunca houve um momento em que eu sugeri que sonhava planos com ele. Eu não sonhava.

Ele me machucou ao me dar o papel da pessoa que tinha o interesse não correspondido. Quando meu único interesse era provar que não existia o descompasso.

***

Parece que todos os relacionamentos que não "dão certo" podem ser analisados a luz desse par opositivo: elx estava interessado e eu não - eu estava interessadx e elx não. 

Quando o flagro sorrindo pra si mesmo ao me abraçar, percebo que imediatamente ele se amedronta e se retrai ao meu olhar. E quando sinto a tensão dele ao amparar a mão que irrefletidamente ofereço ao andar na rua, sou eu quem se sente aflita e muda de gesto.

Nos revezamos na disputa de quem demonstra menos interesse porque está enraizada essa sensação de que os relacionamentos são como a brincadeira da bola girando na roda. E de que quando a canção acabar, a bola vai ficar parada na mão de um dos dois.

Mas não é simplificar demais? Não é atribuir para nós toda a complexidade e relativização ("não tô apaixonadx, só tava precisando de alguém pra conversar e daí fui atrás delx") e atribuir ao outro o estereótipo clichê ("agora elx quer falar todo dia")?

Quando percebo que os constrangimentos desse medo do "dar errado" e do não querer sair "perdendo" me ultrapassam e estão, também, nos gestos das pessoas que se aproximam de mim, volto a me debruçar no meu passado para entender quando foi que aceitei ser assim. E o que poderia levar os outros a repetirem o mesmo padrão.

Talvez precisemos rir da nossa cara, dos nossos constrangimentos desnecessários. E nos lembrar que quando saímos de casa nossa única expectativa era ter uma noite boa. Se foi boa, isso não significa que deu certo? Paremos nesse momento em que os dois seguram a bola e é gostoso seduzir e se interessar. Quando acabar, a gente coloca as coisas no lugar e guarda a bola no armário. Combinado?

terça-feira, 5 de maio de 2015

O que ainda pesa

Penso cada vez menos em você. Aos poucos, as lembranças boas vão desfilando pelos meus pensamentos e seguindo em fluxo para um lugar que não alcanço. Mas uma delas se esconde e tenta passar despercebida, se agarrando às paredes da minha memória. Só hoje a notei. Só hoje lembrei do que eu mais gostava em você.

Talvez tenha sido isso que tenha feito eu me abrir tanto pra você. Teu peso. Um momento de felicidade e desamparo que eu só consigo resumir nessa sensação absurda do teu peso.

Não sei descrever tudo que se passava antes ou durante. Mas um pouco antes, eu já sabia. Você não ia mais aguentar. Ia perder a força que te mantinha suspenso sobre mim. E ia desabar. E então eu sentiria: o peso do teu corpo. Teu estremecer. E não conseguiria esconder o meu sorriso.

[Talvez não fosse o só teu peso. Talvez fosse uma consciência de mim que eu acabava por experimentar. Quando a gravidade te empurrava contra mim, finalmente sentia essas barreiras que me separavam do mundo. Sabia o que era eu, pequena e comprimida, e sabia o que era o mundo, aquele apê e os barulhos por trás da janela. Mas, principalmente, sabia o que proporcionava aquele encontro entre o mundo e eu: você. Nunca soube se você era mais mundo, matéria compressora, ou se ao me comprimir eu também te comprimia e você experimentava essa loucura de se confundir e se perceber.]

Se eu soubesse como acabaria, teria pedido para repetirmos mais vezes. Para te ver desabar mais uma, duas, três, n vezes. Para voltar para aquele momento em que só escuto tua respiração arfante, só sinto o teu peso me contornar, tudo se acalma...

E o tempo para.
Foto: Barbara Carneiro

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Jornalista

Logo que o conheci, me interessei. Achei que poderia contar tudo sobre a sua vida apenas pela sua barba mal aparada, suas olheiras e aquele beck recém bolado em suas mãos.

Mais por querer confirmar minhas hipóteses, menos por querer começar um contato, iniciei uma conversa. Em algum ponto falamos de solidão, e eu, pressentindo a oportunidade perfeita, o bombardeei de perguntas. Não sabia se estava mais interessada no que ele dizia ou em confirmar minhas impressões. Era fácil confundir os dois, porque estavam tão próximos. Ele até me surpreendeu um pouco. Tive que reformular algumas ideias sobre ele. Contornar algumas dificuldades no modelo que desenhava. Mas, enquanto armazenava os dados na cabeça, algum software interno já acusava: É ELE! É ELE!

Satisfeita a minha curiosidade, o olhei atentamente. Parecia constrangido. Foi então que me dei conta da agressividade da minha abordagem e da cara de psicopata que eu poderia estar fazendo naquele momento. Percebi, ainda, que a última pergunta que eu havia feito dizia respeito ao seu último relacionamento e comecei a temer que já tivesse estragado tudo. Tentei pensar em algo que pudesse me salvar.

Ele fumava e olhava pro chão.

- Você é muito interessante! - tentei justificar - Mas acho que já está na hora de parar de fazer perguntas, né?

Ele sorriu, virou a cabeça na minha direção, me olhou e percebeu minha apreensão.

- Normal. Jornalista.

Suas palavras passaram a mão na minha cabeça. Aliviada, quis confirmar:

- Não estou te deixando assustado?

Ele deu um risinho que só percebi de perfil pela sua cabeça ainda um pouco baixa.

- O que foi?

- Meu bem, nesse momento, só consigo pensar em você pelada. Não é assustado que você está me deixando...

É ELE!     É ELE!     É ELE!


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Calcinha de renda

– Não sou supersticiosa, mas acho que pensar que algo pode dar errado às vezes atrapalha.
– Claro que não!  Por que você acha isso?
– Ah, bobagem...
– Não, me conta – ele se divertia. – Qual é a sua superstição?
– Não tenho uma superstição específica, na verdade. Mas tenho uma história com uma calcinha de renda...
Ele caiu na risada.
– Essa eu quero saber!
– Hmm... Bom, eu tinha um encontro marcado com um cara. 'Tava super ansiosa para encontrar com ele e ele tinha me garantido que estava tudo certo para a gente se encontrar. Daí fiz todas as minhas tarefas do dia e comecei a me arrumar, mas, só quando saí do banho, percebi que ainda faltavam três horas para o encontro. Eu tinha pensado em usar uma calcinha de renda para ele. Mas como estava cedo e eu nunca usava aquela calcinha, achei melhor vestir outra até estar mais perto e ele mandar uma nova mensagem de confirmação.
– E não rolou?
– Não!
– E a culpa foi de você não ter vestido a calcinha? – ele provocou.
– Não, né? Mas, sei lá, se eu puder evitar dar sorte para o azar, eu vou evitar...
– E essa calcinha de renda?
– O que tem?
– Você vai vestir amanhã para garantir que eu não vou faltar ao nosso primeiro encontro?
Ela riu.
– Não.
– Por que? Você tá tão segura assim que eu não vou faltar?
– Não. Porque 'tô usando hoje.



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O que São Paulo quer

São Paulo quer me ver pelada, e vai.
São Paulo, Nova Iorque, Los Angeles, Paris, Londres, Budapeste e Kiev querem.
São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belém e Fortaleza querem.
São Paulo quer me ver pelada. 5.394.344 homens
São Paulo quer me ver pelada. 420 móteis, 64 pousadas.
São Paulo quer me ver pelada. Na Estação da Luz, na Augusta, em Pinheiros.
São Paulo quer me ver pelada. No Glória, na D-Edge, no Inferno, no Beco, na The Week, na DJ Club, no Alberta, na Lanterna, no Love Story, no Lab, nas festas da USP.
São Paulo quer me ver pelada. No grafite, na peça, na HQ, no filme, na exposição fotográfica, pela janela do banheiro.
São Paulo quer me ver pelada. O amigo. O vizinho. O motorista do ônibus, o cobrador. O aluno. O chefe. O padrasto. O amigo do filho. O amigo do amigo. O namorado. O marido. O amante. O amigo do marido. O amigo do amante. O pai da amiga. O marido da amiga. A amiga da amiga. O primo. O cara da fila. O turista.
São Paulo quer me ver pelada. Dentro do carro na varanda no elevador na sauna no banheiro na balada no banheiro da balada na rua escura. No quarto. Na sala. Com as cortinas fechadas.
São Paulo quer me ver pelada. Com ele, com aquele outro, aquele outro, aquele outro. Com ele e aquela outra. Eu com as quatro eu com essa eu com aquela nós por cima nós por baixo.
São Paulo quer me ver pelada. Sexy. Ousada. Tatuada. Lésbica. Hétero. Nerd. Blasé. Bêbada drogada sóbria. Normal. Careta. Magra, Malhada, Siliconada, Em forma, Gordinha, Não tão gorda. De calcinha suja ou lavada. Depilada. Querendo estar pelada. Não querendo estar pelada.
São Paulo, quer me dar prazer?
São Paulo, quer me fazer gozar?
São Paulo, quer me amar?
São Paulo! Quer! Ver! Eu e você, peladas.
E vai e vai e vai e vai e vai, peladas, e vai e vai, ver, e vai e vai...

E vai.



quarta-feira, 24 de julho de 2013

Escritora de romance pornográfico




Sonhava em escrever um
Romance pornográfico
Respeitável.

Que encharcasse garotas
e fizesse paus duros
baterem palmas em barrigas flácidas.
Palmas de puro gozo
Literário.

Começou
ligando pro Paulo
e oferecendo um boquete
bem dado.

Por que primeiro,
se vira puta
para então
escrever sacanagem.

Isso é,
Se você for mulher.

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