sábado, 29 de março de 2014

A contragosto

Era uma vez uma mulher que te prometeu amor. Quando tu estavas sozinho e tranquilo, Joana apareceu como uma chuva inesperada de verão. Enrolando os braços no teu pescoço, dando beijinhos no teu cangote, derretendo no teu peito e sussurrando ao teu ouvido: “vou te dar tudo, tudo”. 

Mas Joana foi embora da mesma forma súbita como apareceu. E não deixou nada, nada.

Nunca entendi Joana. Mas hoje me ocorreu que eu já fui Joana...


Eu sempre fui Joana.


terça-feira, 11 de março de 2014

Amor, você me dá sono

Tente não me entender mal, mas essa é a verdade. E desconfio que você já sabe. Só gostaria que você me compreendesse. Você me dá sono e isso nunca foi ruim.

Lembro das noites em que ficava deitada pensando em quem seria você, como você seria e quando apareceria na minha vida. Eu girava repetida vezes pela cama até esquentar o lençol e o corpo e achar que nunca conseguiria pegar no sono. Nem te encontrar.

Também tiveram as noites em que pensava nos caras que conheci antes de você. Então eu criava teorias ingênuas sobre o que eu estava fazendo ou tinha feito de errado. Eu simulava situações e refazia passos e palavras até cair em um sono inquieto e frágil. Como todos esses relacionamentos me faziam sentir.

Em algumas noites, até arrisquei deixar o conforto da minha própria cama para buscar o carinho em outros lençóis. Mas não fique com ciúmes, amor. Essas eram as piores noites. Eram longas horas com o corpo imóvel e a respiração presa para não acordar quem estava ao lado. Ou eram noites de ouvir roncos que não me falavam nada. Eram noites em que me faltava espaço. Físico ou emocional.

E então você chegou, meu amor. E eu quis que você não se assustasse, tentei ficar acordada contigo, puxei assunto e até tomei açaí. Mas era chegar ao teu lado que o meu corpo relaxava. Tudo em ti me era familiar. Teu cheiro quente era o meu maior conforto. Esquecia minhas manias de travesseiros e ursinhos. Não me forçava a parar de pensar, pelo contrário, tentava pensar nas respostas certas ou pelo menos aceitáveis para a nossa conversa. Mas, antes que desse por mim, já não falava nada em sequência e apenas dormia ao teu lado.

Você pode achar que não tenho motivo para ter tanto sono. Isso é porque você não imagina como era exaustivo não te ter comigo. Sinto que só agora encontrei o lugar onde posso repousar. E você é esse lugar.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

How I didn’t meet you

Era questão de tempo até eu encontrar uma forma de te conhecer. Já havia te observado duas ou três vezes. Já tinha arriscado contato visual (infelizmente, sem sucesso). E, sem querer, tinha descoberto teu nome: um amigo havia comentado na foto de outra pessoa, que tinha te marcado. Méritos do Facebook.

Era questão de tempo e o meu tempo estava acabando. Passagem comprada, despedidas marcadas, com direito a noite das garotas. O lugar de sempre e um show dos nossos amigos. Meus e seus. E, na noite das garotas, eu queria um rapaz. Fiz as contas, subtraí três e decidi arriscar. Havia noventa e nove por cento de chances de você estar lá, mas só cinquenta de estar só. Tudo bem, era uma margem com a qual dava pra trabalhar.

Ainda não sabia o que falar. Primeiramente, boa noite. E o nome, claro. Me apresentar. Talvez desse pra contar a história da viagem. Quem sabe nem fosse preciso... Mas antes de tudo, já sabia, não podia me precipitar. Um pouquinho de contato visual não fazia mal pra ninguém. E nada de tiradas diretas dessa vez! Ou engraçadas (afinal, nunca eram). Exceto se já tivesse rolado tequila. Então já estaria tudo desculpado.

Estava tudo pronto. Todas as caras conhecidas por lá. A noite prometia saudosismo antecipado, danças estranhas, piadas internas e fotos constrangedoras. Eu e as meninas não queríamos causar, só queríamos estar juntas mais uma vez e eu, de quebra, queria conhecer você.

Naquela noite, realmente houve tequilas. Duas, poucas, ninguém queria exagerar. A banda tocou o que tinha de tocar e eu ganhei a última música. Não sei quantas novas piadas surgiram. Uma com barba, talvez. Não sei quantas horas se passaram ou com quantas pessoas conversamos e nem quando voltamos. Estávamos de carona.

Nessa noite, eu dancei, ri e fiquei feliz. Não pensei em você. Estava com as melhores companhias que poderia desejar. Até conversei com alguns rapazes, mas, mudei de ideia, por que a noite era realmente das meninas. Aconteceu o que poderia e deveria acontecer naquele lugar e com aquelas pessoas, dois dias antes da viagem.

Hoje, porém, me flagrei pensando no tempo que poderíamos ter aproveitado. É difícil calcular as variáveis, mas gosto de pensar que poderia ter sido ali. E, assim, muita coisa poderia ter mudado para nós. Por outro lado, também temo o que poderia ter sido feito daquele dia. Talvez corresse tudo bem, mas você ainda não soubesse que aquela garota de blusa branca que puxou assunto seria eu. Poderíamos ter ido até o fim. E talvez eu tivesse trocado a minha carona, por uma ida ao motel, com um cara que eu ainda não sabia que seria você. Confesso que, conhecendo você hoje, queria que essa tivesse sido uma opção boa e a verdadeira. Mas, talvez, só perdêssemos o interesse ou a hora certa.

Ao mesmo tempo em que queria ter te conhecido desde o início, desde antes de estar tão longe e por tanto tempo, imagino que o destino (esta série de acontecimentos sem propósito que algum dia conduz a outro lugar) se manifestou nesse dia e te fez não aparecer naquele lugar. Se eu fosse rescrever aquele dia, acharia melhor não nos conhecermos mesmo, mas mudaria, pelo menos, o motivo de você não estar lá.

Estava no motel. Outras garotas no meu lugar.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O que foi dito

Eu não sabia por que tinha aceitado, mas ali estava. Te amo foi usado cem vezes, a primeira vez logo após eu ter dito oi. Perdão foi dito cento e vinte. Mas trinta vezes fora de contexto. O nome dela foi usado quarenta e seis vezes. Seis vezes em vão. “Por quê?” foi dito pelo menos dez vezes, todas por mim. Não sei foi usado cinco vezes. Sexo foi usado sete vezes por você. Eu disse apenas uma vez. Você disse amizade vinte vezes e amigos, cinco. Eu disse confiança três vezes e traição mais oito, em gritos, choramingos e sussurros. Eu disse acabou três vezes. E janeiro também. Você disse não três vezes.

Eu disse facebook e whatsapp uma vez cada. Você disse memória e celular uma vez. Eu disse férias duas vezes. Você disse fica dez vezes. Eu disse estudar apenas uma vez e, em seguida, disse enganada. Você disse desculpa mais trinta vezes. Você disse praia e surf dez vezes. Você também disse O hobbit duas vezes.


Futuro foi usado três vezes. Relacionamento aberto foi dito sete vezes, assim como regras. Beijo foi usado oito vezes antes de você me segurar e me beijar. Abraço não foi dito por mais que nós permanecêssemos juntinhos. Decisão também não foi usado, nem voltar. Esqueci de usar terminar. Zarolha foi usado mais cinco vezes. E alguém contou uma piada sem graça. Provavelmente você. Nós rimos. Casa foi dito pela segunda vez, então. E eu disse comigo pela primeira vez. Entramos no carro. Feliz Natal foi dito uma vez por cada um de nós.

Mais tarde, repetimos. 


domingo, 22 de dezembro de 2013

Insegurança

Nocaute. Eu estou no chão de novo. Não sei como aconteceu, mas foi como sempre foi. Nada mudou. Levanto e te falo que nada se resolve assim. Vamos conversar. Ainda dá para virar o jogo. Sinto que preciso ganhar.

Já passei por isso. Já passei. Deve existir a solução que eu nunca tentei. É um aliado diferente. É um adversário igual.

Sinto a mão gelada do chão no meu rosto. Sou eu, embaixo de novo. E, enquanto a cabeça roda, imagino porque achei que poderia ganhar dessa vez. Por que seria diferente? Porque haveria vitória na batalha que eu sempre perco?

Eu não tinha treinado o suficiente para encarar você. Achei que sim. Achei, amor. Mas eu baixo a guarda e você me destrói mais um pouco.

É isso. Não existe sincronia nessa dança. Erramos os passos, mas só meus pés são pisados.

Nocaute. Não sei se levanto. Ou vou embora.

Você acaba? Ou eu acabo antes que se acabe?


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