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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

É assim que começa

Na narrativa que eu escrevi, eu sou a moça que não espera nada de um encontro com o moço que conheceu na festa. E você é esse moço, a pessoa mais desencanada que eu já encontrei. Nessa história, o rapaz pode apresentar a moça para os seus amigos e brincar de mandar emojis apaixonados. Nela, eu posso escrever teu nome no caderno, emoldurar com corações, fotografar e te enviar pelo WhatsApp. É permitido constranger as pessoas ao nosso redor com danças imorais e cantar músicas pops.

 O que acontece quando você envia versos de funk ousadia para uma gatinha por áudio de WhatsApp  você brincou enquanto trocávamos links de músicas escrachadas.
 Se fizer esse texto vai ter que me pedir em casamento  respondi.
 Oloko
 Ué, mas é verdade. Tem que terminar o texto com: "o desfecho vai te emocionar"...
 Você não vai acreditar no que acontece no final!

O enredo está aberto para pedidos de casamento irônicos. E para planos de programas futuros que nunca precisam se realizar. A narrativa permitia dormir abraçado e pedir opinião sobre os textos escritos. Também permitia reclamar _pelo menos eu achava que sim. 

 É assim que começa! uma amiga me disse quando eu falei de você. 

Na narrativa que eu escrevi, a autora ainda não tinha se decidido sobre essa relação se tornar algo estável e nomeável. Mas eu tinha adiantado uns dois capítulos sem você saber. Nesses dois capítulos, a única intriga era a nossa implicância diária. No mais, a gente continuava a se ver semanalmente e permanecia sem se questionar quanto aos rumos que deveria tomar. Nada era dito, tudo era natural. Natural. Seguindo em fluxo.

Quando começo a escrever uma história, não quero parar. Não sei reescrever, continuo escrevendo para tentar recuperar qualquer falha. Devia ter ouvido teus comentários, devia ter parado, ali, no momento em que você diz que está tudo indo rápido. Não está, fofinho. Não tenta ler entrelinhas. Não tenta significar. Te implorei mentalmente. Devia ter dito em voz alta que eu só queria essa chance para me entregar sem pensar.

O João chegou na minha casa quando eu ainda me constrangia pelo enredo ruim da nossa história. Se criticam 500 dias com ela, quem dirá isso aqui! Deitei a tela do computador para me deitar com ele. Não pensei em nada, não fui nada. Nada além da terceira opção do Tinder. A primeira gostou dele, a segunda ele gostou. E eu?

Quando acordo, estamos andando de mãos dadas, eu e o João. Ele tinha se oferecido para me acompanhar na minha caminhada matinal e cruzávamos ruas desertas na Santa Cecília. João nunca falava muito, mas, nesse dia, me contava sobre a ex-namorada. Em geral, as pessoas não gostavam de falar sobre seus relacionamentos antigos, por isso, me senti mais próxima dele. Ele falava sobre um relacionamento de cinco anos. Falava sem nenhuma paixão, com voz de domingo. 

 Quando a gente se conheceu, os dois estavam muito mal. Foi a tristeza que uniu a gente. Ela era a única que conhecia o que eu tava sentindo.
 E mesmo assim vocês passaram cinco anos juntos? perguntei com a minha surpresa de quem vive eternamente apaixonada.
 Sim. Era... era só tranquilo, sabe?
Penso que todos os relacionamentos do João devem ser tranquilos. E, por alguns segundos, me pergunto se é possível que exista mais paixão entre nós do que entre ele e a namorada antiga. Tesão acho que sim.

Continuamos andando. Ele me pergunta se quero um caldo de cana e nós paramos a nossa caminhada por alguns segundos. Pego meu copo de caldo de cana com gengibre (Você vive me ensinando coisas!, João exclama tomando o caldo dele) e me flagro indo em direção ao meu lugar preferido, puxando o pela mão.

 Eu adoro esse lugar deixo escapar.
Ele não diz nada, olho para seu rosto e vejo brilho nos olhos. Sorri para mim. Sinto que me agradece e afundo dentro de mim.

Percebo que João interpreta o papel do personagem que concebi pensando em você. A falta de preocupação, a ausência do medo de se entregar. Até na presença, no companheirismo. Guardei o Minhocão para correr com você. Para voltar da sua casa contando passos e tirando fotos das coisas que você não podia perder. Tanto que eu planejei dividir! E, sem querer, me vejo carregando um João feliz em um sonho que ele imagina só meu.

Acelero o passo para chegar logo em casa. Ao chegar, João me pergunta se podemos assistir mais um episódio do seriado que tínhamos começado juntos. Vamos!

 Você assistiu algum sem mim? ele me pergunta enquanto estamos nos arrumando para começar.
 Não.
Nos olhamos alarmados. Ele se pergunta se estou esperando por ele. Eu, se ele queria que eu esperasse.

É assim que começa?


(Isso aconteceu umas duas semanas antes de o João parar de me mandar mensagens).


Jenny Yu

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Elogio a um ano ruim



O fim de 2014 foi se aproximando e eu me peguei pensando em Ivana Arruda Leite e no seu livro Alameda Santos. A história é construída a partir de um ritual da autora de passar o réveillon bebendo e gravando as recordações de cada ano que se encerra. Lembrei do texto que escrevi sobre 2012 e decidi escrever este sobre meu 2014. Dois mil e treze, infelizmente, foi um ano pulado. Não só na escrita. E, esse texto, tem tudo a ver com ele.

Ao olhar para trás e tentar começar a delinear essa história, vejo muitos conflitos. Não brigas e desentendimentos, mas rebuliços internos. Nesse ano, me deparei com a situação mais assustadora da minha vida até agora. Me peguei aprisionada dentro de mim. O que talvez não fosse um problema se eu não tivesse me dado conta disso. Algumas reflexões que eu havia deixado espalhadas em várias gavetas e sacolas em cima do guarda-roupa, começaram a aparecer em cima da mesa. E, quanto mais eu me recusasse a fita-las, mais a vida se encarregava de torna-las necessárias.

Explico melhor. Em algum momento, olhei para os meus amigos e constatei estarrecida que tantos passavam por tantos desafios e dores! A dor deles era horrível. E, para mim, não me deixava esquecer que eu era ilha. Era presa dentro de mim. E que, por mais que eu achasse que entendia como eles se sentiam, eu sabia que não. Porque todas as minhas sensações estavam ligadas à mim de uma maneira frustrante. Eu me sentia incapaz, eu me sentia miserável. E tantos passavam por tanta dor!

Nesse momento, me senti afastada de tudo. De todos os que eu amava e que, naquela época, só me lembravam do meu egocentrismo. Não conseguia conversar realmente e me sentia forçada a interagir porque nunca havia me sentido assim. Eu, que sempre odiei estar só. O que ainda me fazia sentir ligada à “realidade” era o meu namorado e a interação diária que nosso relacionamento me exigia.

Lembro que, em algum momento, quando já percebíamos que algo não ia bem, eu fiz um pedido. Não me deixa, porque eu não consigo lidar com isso agora. Hoje, me pego pensando nesse pedido e me perguntando como pude ter feito um pedido tão egoísta. Não que eu achasse que comprometeria a felicidade dele. Mas, de toda forma, eu falava apenas de mim e do meu medo de ver tudo desmoronar. Eu não pedi para ele não me deixar porque eu o amava

Como vocês podem imaginar, esse relacionamento acabou. E, apesar de achar certo, por dentro, ainda me sentia abandonada. Tentei proteger a cabeça com as mãos e esperei tudo desmoronar. Queria contar que não foi isso que aconteceu. No entanto, não seria a verdade. Desabou um pequeno pedaço do meu teto. E, assim que caiu, algumas coisas ficaram muito mais iluminadas.

Olhei para os meus amigos e percebi que eles não esperavam que eu sentisse a dor e os problemas dele, eles só queriam que eu estivesse ali, feliz, ao lado deles. Olhei para o ano de 2013 e pensei que seria uma boa encontrar a Seane de abril e maio. Aquela que estava cheia de brilho nos olhos, falando sobre sinceridade, dando as costas para a ironia e desejando aprender coisas verdadeiras sobre a vida. Aquela que tinha parado de tentar lidar com a solidão e que tinha decidido, no final das contas, que solidão era algo que ela precisava buscar para crescer um pouco mais. Aquela que estava livre de relações sádicas. Aquela sem culpas.

Tive medo de ter perdido esse meu momento ao ter iniciado um relacionamento. Mas, quando finalmente encontrei com essa minha versão, descobri que eu ainda era a mesma (talvez um pouco mais interessante). E que 2014 era apenas a continuação de um ano de transformações profundas.

Não queria ser injusta com os amigos que entraram na minha vida e pareceram me entender sem dificuldades, ou com os que me aguentaram o ano inteiro, na TPM e no tédio dos fins de semana. Não queria ser injusta com o afilhado que chegou e já me proporcionou muito amor e admiração. Mas 2014, foi um ano de desmoronamentos. Na minha vida e na de muitas pessoas que estiveram ao meu redor.

Os desmoronamentos, entretanto, eram os passos que faltavam para mudanças permanentes e grandes aprendizados. O que desmoronou era o que havia do passado e que tentávamos segurar por muitos motivos, sem parar para pensar se era bom ou ruim. Até aqui, você tem toda razão de estar me xingando por esse texto clichê. Porém, não consigo evitar esse tom positivo. A magia desse ano ruim, para mim, foi revelar que, quando algo cai, você é quem escolhe se olha para os destroços no chão ou se para o novo espaço vazio que se revelou. Eu, agora, olho para o vazio e penso: Continuemos! Continuemos.


***
A Ilustração desse texto foi postada originalmente no blog Moldando Afeto, na seção cartas amarelas. Uma das descobertas apaixonantes desse ano.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

É preciso sentir dor: #nopainnogain

Como algumas pessoas mais próximas sabem, eu estou tentando mudar de vida. Mudar de vida no sentido de me tornar mais saudável, disposta e, de quebra, ficar com um corpo que eu ache legal. Antes de entrar na academia, eu já tinha tentado correr e, muito antes, já tinha me inscrito em aulas de Kickboxing. Na época, tudo isso me parecia muito divertido e motivador, já que além de me exercitar, eu ia aprender algo e isso, eu acreditava, me faria ser disciplinada. Não funcionou, mas, não por culpa das atividades e, sim, porque eu ainda não tinha realmente vontade de mudar de vida e desisti nas primeiras dificuldades.

Esse ano, resolvi, com muito incentivo das pessoas que me acompanhavam de perto, ir realmente atrás disso. Me inscrevi na academia porque era mais barato que muitas outras coisas mais divertidas e porque eu já tinha idade suficiente para parar de dizer que “academia é chato”. No meu primeiro dia de aula, meu instrutor quis me assustar. Montou aquele treino de perna matador e foi colocando os pesos nos aparelhos sem nem saber o que EU, que sempre fui sedentária, aguentava. Eu resisti o treino inteiro, reclamando muito. E voltei para casa com a perna toda falhando. Naquele momento, a única coisa que não me fez desistir foi pensar: “Ei, um dia eu vou fazer esse treino e não vou sentir vontade de morrer”.

Mas a verdade é que eu estava enganada. Não que eu não tenha me adaptado àquele primeiro treino, mas eu estava enganada quanto a lógica que estava circulando nas academias e em vários outros lugares. Porque essa lógica proíbe qualquer tipo de adaptação e costume. Segundo essa lógica, é preciso sentir dor.

Uma vez, um rapaz chegou mesmo ao ponto de me parar na academia e dizer que eu não estava forçando o suficiente. “Se tá fácil, é porque tá errado”, ele me garantiu. Aliás, essa frase também ilustrava uma campanha de tênis de corrida da Nike, que eu sempre olhava na USP. Se você segue alguém, em suas redes sociais, que tem uma vida “fitness” e aquele corpão escultural, você também vai encontrar em todas as postagens dessa pessoa esse tipo de “incentivo” ou filosofia de vida. Uma das que eu sigo, por exemplo, diz sempre que treina na carga máxima e que repete até a falha. Em um dos vídeos dela no instagram, é possível ouvir a voz do personal dizendo “sofre, sofre”.

E, tudo isso, ainda parece muito bizarro para mim. Mesmo depois de saber que a eficiência da musculação reside no fato de criar pequenas lesões no músculo (e, que, portanto, é impossível não sofrer), não acho que o culto à dor nos leve a algum lugar.

Venho de uma criação cristã (que cultiva, na base, ideia da doação e sacrifício) e sigo carreira acadêmica (que também, ainda que não explicitamente, pressupõe sacrifícios e um sofrimento aparentemente inescapável), e, portanto, posso dizer que já tive demais dessa lógica na minha vida. Hoje, no entanto, tento seguir os exemplos de amigos que passaram pelo mestrado como se tivesse sido um sonho, porque conseguiram ser disciplinados o suficiente para evitar o estresse de ter que dar conta de tudo nos 5 minutos do segundo tempo. E, não por coincidência, foi também um desses amigos (uma amiga que está com um corpão incrível, na verdade) que me mostrou que é possível praticar atividade física religiosamente sem cair nos excessos do culto à dor.


Como acredito que não conseguimos aguentar uma “situação-limite” por muito tempo, acredito que a ideia do #nopainnogain, ao mesmo tempo em que incentiva as pessoas mostrando que não é fácil para ninguém, também fornece uma perspectiva de vida assustadora. Não queremos sofrer para sempre, queremos enfrentar desafios, mas não para apenas enfrentar ainda mais desafios. Mas para chegar em um ponto em que nos tornamos melhores. Para mim, me tornar melhor diz mais respeito a enfrentar o desafio da disciplina diária do que a acatar discursos paranoicos. O meu ganho, não vem da dor.



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Histórias de amor, pontos e vírgulas

Eu tenho uma história para contar. A história de um garoto que eu conheci e com quem encontrei o amor, a paixão e a calmaria. Ele foi a bonança na tempestade dos meus erros amorosos. Eu e o meu garoto alcançamos o felizes para sempre no mesmo dia em que nos encontramos.

Mas nós dois gostávamos de erros, gostávamos de drama e de telefones desligados na cara. Chegamos ao ponto final e decidimos que faltavam algumas vírgulas. Talvez pudéssemos incluir um triângulo amoroso ou mesmo um quarteto. Ou aquela dificuldade que parece ser a razão e o alimento de alguns relacionamentos. Inventávamos conflitos para, depois, sentirmos a felicidade renovada de apagar tudo.

Chegamos ao fim da história e queríamos continuar a escrever. Amores perfeitos são para serem sonhados, não vividos. Houve medo, claro. Tínhamos medo de abandonar o abraço que nos unia. Mas o abraço prolongado só nos lembrava de comodismo e nos assombrava silenciosamente. Antes queríamos os poucos segundos antes dos corpos se fecharem no abraço. Queríamos o começo cheio de clímax. Para sempre.

Queríamos o esforço. A mensagem inesperada que chega e, não, o "boa noite" que de tão frequente deixa de existir. Não queríamos deixar de nos ouvir. Não queríamos ter sobre o outro o mesmo efeito que uma noticia de morte em jornal popular.

Então, eu disse para ele partir. E ele concordou em me deixar aqui. Gostaria de dizer que foi a melhor decisão. Não sei. Eu e o meu garoto éramos loucos. Somos. Sinto a falta dele. Mas ainda guardo todos os rascunhos dessa história. 

Um dia pode vingar.


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