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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Minha nova newsletter fitness



Quando idealizei o E o mundo seguiu adiante... imaginava que esse seria o espaço onde eu poderia publicar e compartilhar todas as minhas experimentações literárias. E, acredito, tem sido assim até hoje. Aqui e ali, no entanto, tive muita vontade de compartilhar mais que as estórias que escrevia. Foi assim que acabei escrevendo alguns textos como Meu corpo não é futilidade, É preciso sentir dor e Linda sem esforço. Em comum, esses textos tinham não apenas o tom argumentativo, mas o fato de que falavam de um mesmo tema: o corpo. 

Por não achar que esse blog era o lugar apropriado para todas as coisas que eu pensava, pesquisava e queria trocar sobre esse outro lado da minha vida _o lado em que eu sou uma frequentadora de academia e vivo experimentando receitas malucas fitness_, eu comecei a explorar esse conteúdo em vários lugares, mas nunca me senti realmente a vontade para assumir isso como um conteúdo central de algum espaço.

Recentemente, no entanto, descobri o tinyletter. Uma site/rede que te permite enviar newsletters com toda a facilidade do mundo. Somei um + um e voilá! Criei um espaço para a Blogueira Fiteness _a presença de um "e" a mais se deve a uma brincadeira com a pronúncia_ que já habitava o snapchat @secoelho e o twitter @secomedia. Para receber meus e-mails _estou fazendo promessas mentais para que sejam semanais_ é só assinar a newsletter nesse link. Espero que gostem!

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Linda sem esforço: o implícito nos nossos ideais de beleza

Por sorte, sempre estive rodeada de mulheres fortes e guerreiras, o que me permitiu aprender um pouco sobre a vida e os pontos de vista dos outros e ter um pouco de empatia pelas batalhas de cada um. Recentemente, estava conversando sobre maternidade com uma amiga que teve seu primeiro filho há 8 meses. Ela desabafava sobre uma fotografia que havia visto em um site de informações para mães e que exibia uma mãe linda e arrumada, sorrindo feliz com seu bebê e seu marido, em um cenário de uma casa linda e impecavelmente arrumada. Ela não se reconhecia na foto. Ela olhava pra si e via uma pessoa que raramente tinha tempo para fazer as unhas. Ela olhava pra si e via uma mulher que no fim de cada dia estava exausta (se eu fosse ela, estaria exausta já no meio da tarde!) e que não pensava em muita coisa além de dormir.

O problema da foto, apesar de ser uma imagem puramente publicitária, é que ela falava para a minha amiga que talvez ela não estivesse dando conta completamente da maternidade. Porque não basta uma criança saudável e feliz, é preciso se manter dentro dos padrões de beleza (o tal do "se cuidar") e ainda manter a casa limpíssima! A foto não falava das ajudantes que aquela mulher hipotética com aquela casa hipotética deveria ter. Ou, mesmo sem ajudantes, do quão difícil aquilo seria na vida real.

Preparação para uma foto realista da maternidade

Você pode argumentar que era uma foto publicitária e que ninguém espera que aquilo seja realmente verossímil. Sim, de fato. Mas ainda como imagem publicitária aquele é um discurso que circula. Um discurso que fala sobre como devemos parecer, mas que apaga tudo o que é necessário para que aquilo seja alcançável.

Usei o exemplo da minha amiga para falar de algo a que eu aderi recentemente: a prática regular de atividades físicas. No meu caso, a prática da musculação. Toda vez que eu começava a praticar uma atividade física, eu pensava em como aquela atividade poderia me deixar com um corpo mais bonito (apesar de amar aprender "truques" novos e de ganhar disposição física). Mas, na hora do suor e do esforço, eu sempre descobria que era pesado demais. Era pesado o treino que você precisava fazer apenas para se manter saudável, já o treino para ter um corpo de TV era absurdamente pesado.

Quando eu comecei a querer começar a treinar PESADO, eu naturalmente comecei a reparar muito mais no corpos que encontrava ao meu redor. Eu olhava as lindas atrizes de Hollywood, com seus corpos trabalhosamente esculpidos, interpretando personagens sedentárias ou que pelo menos nunca apareciam fazendo atividades físicas.

A Angelina Jolie como sra. Smith, por exemplo, aparece escovando o dente e realizando algumas tarefas domésticas, mas nunca cuidando do corpo. Estava implícito, você pode dizer, afinal ela é uma espiã. Em um seriado que eu adorava, House, minha personagem mulher preferida era a diretora do hospital, Lisa Cuddy. A Cuddy tem um corpo absurdo de lindo, como o House vive reparando, é diretora de um hospital que vive tendo problemas e, no seriado, ela ainda adota uma filha. Depois que a Cuddy passa a ser mãe, ela aparece com cara de cansada em um ou dois episódios. Em um episódio específico, até lembro que ela menciona que vai correr, mas a prática de atividade física NÃO parece mesmo ser algo que faça parte da vida exaustiva dessa personagem, que, ainda assim, tem um corpo "perfeito". Genética, você pode alegar. Tudo bem. Deve ser a genética mesmo que fica implícita em todas as personagens (mulheres no mercado de trabalho ou donas de casa ou os dois) que nunca aparecem se esforçando para ter corpos que em tudo se aproximam do ideal de beleza.

"Academia, eu?"


Ah, mas talvez seja exagero querer que isso seja visível! Concordo. Afinal, é algo difícil e muitas vezes bem chato, que envolve pessoas suando e tentando superar seus limites. Seria bem chato mesmo se, ao retratar a rotina entediante de alguém, trocassem as cenas dela comendo cereal matinal cheio de açúcar por cenas dela indo à academia!

Só quando eu comecei a ficar atenta para o corpo que as pessoas aspiravam na academia, foi que eu comecei a pensar na disciplina que era necessária para que algumas daquelas atrizes exibissem aqueles monumentos. Fiquei durante muito tempo me perguntando se estava tudo implícito mesmo. E lembrei até de umas personagens que eram associadas a atividades físicas. A Claire Underwood de House Of Cards, que parece ser viciada em corrida, na sua primeira cena com atividade física, aparece correndo em um cemitério! (Por favor, sem spoilers porque só comecei a ver). Outra personagem que eu lembro é outra Claire, de Modern Family. A personagem mais chata do seriado, diga-se. Uma mulher, mãe de três filhos, que é daquele tipo temperamental, obsessivo e controlador. O mais engraçado é que a personagem da Gloria, definitivamente a gostosona do seriado, não é normalmente associada com atividades físicas.

"Hoje eu tô destruidora! Toca aqui!"


Mas o que isso tem de tão nocivo e prejudicial? Na minha opinião, é o apagamento do trabalho e do esforço por trás dos nossos ideais de beleza hegemônicos. A mim parece que é tudo bem encher o nosso entretenimento de mulheres malhadas, maquiadas, com unhas pintadas, cortes de cabelo em dia e depiladas, mas não é tudo bem admitir o que está por trás de tudo isso (às vezes nem isso é admitido, na verdade): quanto tempo, quanto esforço, em quais condições tudo isso pôde ser realizado. Esse apagamento pode gerar no mínimo duas consequências: em primeiro lugar, uma decepção ou resignação com a sua genética. Até outro dia, por exemplo, eu dizia que sempre tive barriguinha saliente e sempre ia ter mesmo que me esforçasse. Afinal, tem gente que não faz nada e tem barriga chapada! É a mágica do gene. Não tinha a ver com dieta restritiva muito menos com atividade física diária. Claro que não! Em segundo lugar, e mais importante, esse apagamento gera imagens equivocadas sobre os "cuidados" consigo. Idealizadamente, eles devem parecer com diversão e como um presente que você se concede de vez em quando. Na vida real, eles mais parecem um ritual: lavar o rosto com o sabonete X duas vezes ao dia, passar creme ao redor dos olhos ao dormir, tomar vitaminas para fortalecer cabelos e unhas, fazer 6 refeições ao dia, fazer as unhas uma vez por semana, utilizar máscara hidratante no cabelo por 5 min, exercício aeróbico 5 vezes por semana... E a lista cresce proporcionalmente com a sua idade!

As imagens equivocadas dos cuidados, também geram imagens equivocadas do desleixo. Como se fosse muito simples estar em dia com o ritual da beleza. E como se devesse ser uma escolha de todas estar em dia com esse ritual (sem parecer fanática por atividade física ou por maquiagem, claro, porque ninguém quer realmente saber o que está por trás da vaidade). Com base nesse equívoco é que algumas pessoas podem olhar para uma mulher que acabou de ter um filho (e a própria mulher pode olhar para si), por exemplo, e achar que ela está descuidada consigo. Porque ainda que sempre encontremos os esforços implícitos, o que está na superfície dessas imagens é apenas o ideal da beleza providencialmente desligado do seu contexto. Esse ideal da naturalidade e da falta de esforço é o que fundamenta o olhar de condenação ao que está fora do lugar. Esse último deve ter algum problema, pois fugiu do "natural". Não apagar o esforço e o trabalho por trás das imagens que consumimos, talvez seja um dos caminhos para começarmos a perceber esse cenário como uma questão de escolhas. E, quem sabe, para nos sentirmos melhor em relação às nossas escolhas.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

É preciso sentir dor: #nopainnogain

Como algumas pessoas mais próximas sabem, eu estou tentando mudar de vida. Mudar de vida no sentido de me tornar mais saudável, disposta e, de quebra, ficar com um corpo que eu ache legal. Antes de entrar na academia, eu já tinha tentado correr e, muito antes, já tinha me inscrito em aulas de Kickboxing. Na época, tudo isso me parecia muito divertido e motivador, já que além de me exercitar, eu ia aprender algo e isso, eu acreditava, me faria ser disciplinada. Não funcionou, mas, não por culpa das atividades e, sim, porque eu ainda não tinha realmente vontade de mudar de vida e desisti nas primeiras dificuldades.

Esse ano, resolvi, com muito incentivo das pessoas que me acompanhavam de perto, ir realmente atrás disso. Me inscrevi na academia porque era mais barato que muitas outras coisas mais divertidas e porque eu já tinha idade suficiente para parar de dizer que “academia é chato”. No meu primeiro dia de aula, meu instrutor quis me assustar. Montou aquele treino de perna matador e foi colocando os pesos nos aparelhos sem nem saber o que EU, que sempre fui sedentária, aguentava. Eu resisti o treino inteiro, reclamando muito. E voltei para casa com a perna toda falhando. Naquele momento, a única coisa que não me fez desistir foi pensar: “Ei, um dia eu vou fazer esse treino e não vou sentir vontade de morrer”.

Mas a verdade é que eu estava enganada. Não que eu não tenha me adaptado àquele primeiro treino, mas eu estava enganada quanto a lógica que estava circulando nas academias e em vários outros lugares. Porque essa lógica proíbe qualquer tipo de adaptação e costume. Segundo essa lógica, é preciso sentir dor.

Uma vez, um rapaz chegou mesmo ao ponto de me parar na academia e dizer que eu não estava forçando o suficiente. “Se tá fácil, é porque tá errado”, ele me garantiu. Aliás, essa frase também ilustrava uma campanha de tênis de corrida da Nike, que eu sempre olhava na USP. Se você segue alguém, em suas redes sociais, que tem uma vida “fitness” e aquele corpão escultural, você também vai encontrar em todas as postagens dessa pessoa esse tipo de “incentivo” ou filosofia de vida. Uma das que eu sigo, por exemplo, diz sempre que treina na carga máxima e que repete até a falha. Em um dos vídeos dela no instagram, é possível ouvir a voz do personal dizendo “sofre, sofre”.

E, tudo isso, ainda parece muito bizarro para mim. Mesmo depois de saber que a eficiência da musculação reside no fato de criar pequenas lesões no músculo (e, que, portanto, é impossível não sofrer), não acho que o culto à dor nos leve a algum lugar.

Venho de uma criação cristã (que cultiva, na base, ideia da doação e sacrifício) e sigo carreira acadêmica (que também, ainda que não explicitamente, pressupõe sacrifícios e um sofrimento aparentemente inescapável), e, portanto, posso dizer que já tive demais dessa lógica na minha vida. Hoje, no entanto, tento seguir os exemplos de amigos que passaram pelo mestrado como se tivesse sido um sonho, porque conseguiram ser disciplinados o suficiente para evitar o estresse de ter que dar conta de tudo nos 5 minutos do segundo tempo. E, não por coincidência, foi também um desses amigos (uma amiga que está com um corpão incrível, na verdade) que me mostrou que é possível praticar atividade física religiosamente sem cair nos excessos do culto à dor.


Como acredito que não conseguimos aguentar uma “situação-limite” por muito tempo, acredito que a ideia do #nopainnogain, ao mesmo tempo em que incentiva as pessoas mostrando que não é fácil para ninguém, também fornece uma perspectiva de vida assustadora. Não queremos sofrer para sempre, queremos enfrentar desafios, mas não para apenas enfrentar ainda mais desafios. Mas para chegar em um ponto em que nos tornamos melhores. Para mim, me tornar melhor diz mais respeito a enfrentar o desafio da disciplina diária do que a acatar discursos paranoicos. O meu ganho, não vem da dor.



sexta-feira, 13 de junho de 2014

[dilemas] Meu corpo não é futilidade

Recentemente, comprei o livro da Jana Rosa e Camila Fremder, Como ter uma vida normal sendo louca. Não fazia ideia da existência do livro até duas amigas diferentes comentarem sobre ele em um período de menos de duas semanas. Parecia engraçado e as autoras em si já são muito engraçadas, resultado: comprei.

Mas não quis iniciar esse texto para fazer uma “crítica” da obra. Nem para confundir as autoras com as situações descritas no livro. Queria apenas falar sobre o “Ensinamento 15: sobre dieta, academia e spa”. Esse ensinamento (ou capítulo) é direcionado para mulheres que estão muitos quilos acima do peso (a partir de 5kg), que não cabem mais nas roupas e que decidem emagrecer. As autoras, então, contam como é uma tortura experimentar vários tipos de dietas e escutar pessoas falando sobre dietas. Ir para academia é outra tortura que só gente louca tolera. E spa é a opção para quem chegou no fundo do poço, mas que apresenta resultados apenas temporários. O ensinamento, então, conclui que “a vida é assim”.

Não é novidade para ninguém que é muito difícil nos sentirmos satisfeitos com o que temos. Não só com o corpo, mas com a inteligência, com a situação financeira, com a vida amorosa e etc. Sinceramente, não é à toa que Lacan faz sucesso. Por que o tal do objeto pequeno “a” é a descrição perfeita de como sempre estamos almejando chegar em um estado de completude através da aquisição de algo que nos falta (o "a") e de como isso nunca acontece. Não porque nunca alcançamos algo que queremos, mas porque no momento que alcançamos ele já não é mais nosso objeto de desejo.

Nunca estive muito acima do peso e não lembro de já ter sido chamada de gorda na minha vida. Ainda mais: nunca me senti gorda. Sempre achei que estava num espaço intermediário entre as magras e as gordas. Mas só muito recentemente tive coragem de dizer em voz alta que eu não era satisfeita com o meu corpo. Eu acredito na ditadura da beleza e acredito que padrões assustadores nos são administrados goela abaixo. Mas não achava que a revista feminina ou os desfiles de moda eram o que me fazia sentir insatisfeita, pois eles não eram referências para mim. A minha referência era o espelho e o que eu achava que estava sobrando ou faltando no meu corpo. A minha referência era a limitação física que eu comecei a sentir a partir dos 20 anos, como consequência de muito sedentarismo.

Admitir isso era muito duro para mim, porque implicava assumir que eu ligava para essa futilidade que é um corpo saudável e, de preferência, bonito e em forma. Eu senti medo de cair em algum dos estereótipos que eu não gostava: da gostosa sem nada na cabeça, das marombeiras de academia, das food haters. E nada disso combinava com o que eu sempre valorizei mais, que eram os meus estudos, e com o que eu adorava fazer, que era comer bolo.

Só para abreviar, essa história não termina com um testemunho motivacional. Do tipo, “hoje sou gostosa e até tentei citar um pouco de Lacan nesse texto”. Se tem algo muito bom que aprendi desde que eu disse “cansei de ser a legal, quero ser gostosa também”, foi que realmente dietas não funcionam e academia é um saco, se você não está buscando essa mudança para você. Foi também que muita gente não sabe nada de dieta e alimentação. Que se você for atrás de cortar tudo que é um vilão – glúten, farinha branca, açúcar, lactose, etc – você vai surtar.

Eu sempre fui apaixonada por doces e foi a primeira coisa que eu tentei tirar na minha busca por ser mais saudável. Para várias amigas minhas, isso era muito fácil, porque elas NÃO gostavam de vários doces. Mas eu gostava. E cortar isso funcionou por um tempo, mas depois começou a me afetar no sentido ficar na fissura pra comer chocolate de madrugada. Coisa que eu nunca fazia! E daí eu comecei a perceber que algumas coisas funcionavam com outras pessoas exatamente porque elas não precisavam daquilo ou simplesmente não gostavam.

Comecei a estabelecer minhas próprias regras de alimentação saudável, com direito a brigadeiro, pão de gorgonzola e hambúrguer! Mas em compensação, eu aprendi a comer FRUTA e a achar salada uma delícia. Isso não mudou muito o meu corpo, mas me dá uma satisfação imensa.

Espero que esse texto não esteja motivacional ainda. O que eu queria dizer é que a garota muito acima do peso da história fez tudo errado. Pois ela não tentou se compreender e se amar. Se ela não se gosta gorda ou fica triste porque não cabe mais nas roupas, ela pode mudar isso! Mas ela tem que mudar isso se respeitando, sabendo o que o corpo dela tolera. E descobrir como ficar com o seu corpo em forma não é futilidade.


Achar que “a vida é assim” e nunca ir atrás de mudança é uma das coisas mais tristes que alguém pode fazer. Ainda mais se a solução para se sentir melhor for qualquer uma das que estão no “Ensinamento 16: como viver acima do peso sem que ninguém perceba”.



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