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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O cara do emoji

- Até agora você não me disse nada de grave, Renata - Fernanda levantou os olhos do conteúdo que mexia na panela e olhou séria na minha direção.

Nós tínhamos combinado um jantar para colocar os assuntos em dia. Enquanto ela dava os últimos ajustes no molho, eu colocava a mesa.

- Não sei... Parece bobo, mas tá me fazendo mal, sabe? Claro que eu não fico mal com isso o tempo todo, mas é uma coisa que eu não resolvi e sempre volta pra me assombar - eu disse e fui sentindo as palavras atolando na garganta. Disfarcei demonstrando uma concentração extraordinária para posicionar o jogo americano sobre a mesa.
- Bom, acho que se é algo que está te fazendo mal, é muito legítimo que você queira resolver e procure ajuda. Mas eu queria que você parasse de ouvir um pouco o que o Carlos diz. Não tem nenhum problema com você. Não tem nenhum problema com essa situação com esse cara...

Eu agora me concentrava em pegar os pratos e copos na prateleira. Ela sempre fazia de tudo para eu me sentir melhor, mas eu não sabia se, dessa vez, poderia deixar por isso mesmo.

- Assim... - Fernanda tateava em busca das palavras - desde que você me falou desse cara, eu sempre achei que você poderia estar, sei lá, ficcionalizando um pouco...
- Exato! - soltei demonstrando uma concordância mais efusiva do que eu mesma esperava. - Acho que é isso que tem me incomodado, essa minha tendência a ficcionalizar a minha vida. Eu não sei parar... - comentei olhando triste para a mesa completamente posta.

Sem meu disfarce, me joguei em uma das cadeiras e esperei o que mais Fernanda teria para falar.
- Eu acho muito importante você já saber disso - ela disse animada e aliviada, apagando o fogo. - Cê sabe que eu sempre  recomendo terapia, né? Acho que todo mundo deveria fazer. Me ajudou muito!
- Acho que eu realmente preciso - eu disse jogando os braços em cima da mesa - Ando tendo esse medo de estar passando por cima demais das coisas, de ter deixado algo passar e dessa coisa, que eu não sei o que é, estar desestabilizando tudo.
- Rê, - ela tinha se sentado na cadeira em frente e servia o macarrão (uma nova receita de molho de cenoura e beterraba) - eu acho que, enquanto cê procura um analista, cê já podia começar a escrever algumas coisas... Não foi isso que você sempre fez?
Concordei com a cabeça.

A escrita sempre tinha sido a minha primeira opção. Mas, de uns tempos para cá, eu simplesmente me recusava a recorrer a isso. De uns tempos para cá não. Desde você. E eu sabia o porquê. Em parte, tinha a ver com um amadurecimento. Pelo menos eu assim o encarava. Às vezes, não me enxergava mais na autora que vislumbrava pelas frestas entre as palavras de meus textos antigos. Too much drama. Eu pensava nisso e tinha vontade de jogar minha cabeça para trás. Talvez o drama ainda fizesse parte de mim. Pensando bem, o problema poderia estar nesse meu movimento de tentar escondê-lo. Mas eu não queria dar o braço a torcer. Não queria que o Carlos e nem nenhum dos meus amigos soubessem que eu ainda era a mesma menina que dava um valor exacerbado para os relacionamentos amorosos. Não queria que achassem que a única coisa que tinha mudado eram os nomes, Thiago, Marcelo e, agora, você.

Por outro lado, não era só para os meus grandes amigos que eu tinha vergonha de admitir tudo isso. Era para mim e, principalmente, para você. A gente sempre esteve nessa disputa para saber quem era menos problemático. E, sinto muito, mas perder para você estava além dos defeitos que me dispunha a admitir.

- Vai escrever um texto sobre isso, vai? - você perguntou irônico me pegando desavisada.
Doeu. Ele me leu? Por que ele nunca falou nada? Por que isso soa tanto como uma crítica? Muitas perguntas passearam pela minha cabeça, mas duas coisas foram assimiladas na hora. Uma: você não disse que gostava do que eu escrevia. Duas: você achava que eu só escrevia sobre as coisas que aconteciam na minha vida. Não lembro se me defendi primeiro. Eu não escrevo sobre isso. Ou se tentei disfarçar que tinha sido nocaute. 

- Você leu o meu blog?
- Claro, ué, você coloca o link na sua descrição do Twitter - você fez pouco caso.
- Mas ninguém lê isso.
- Eu leio.

Sorri pro prato de macarrão.
- O que cê tá pensando? - Fernanda perguntou de boca cheia.
- É engraçado... Eu ficcionalizar tanto a realidade e ser acusada de "só contar a minha vida" quando escrevo ficção - eu disse dando de ombros.
Ficamos em silêncio empenhadas em devorar mais macarrão.
- Rê?
- Oi?
- Quem é mesmo esse cara? Não é o do Tinder, né? - ela perguntou franzindo a testa no esforço de recuperar algum detalhe.

Eu acho engraçado quando meus amigos perguntam isso. Nunca soa como uma ofensa. Às vezes até me sinto tranquilizada por ter conseguido minimizar a tua influência na minha vida.

- Não. Esse é o João. O João é um amor.
- É o bonitão?
Eu rio.
- Não... - e me surpreendo sentindo uma pontada de dor.
- Também não é o escritor, né? Eu lembro que cê só falou muito por alto dele.
- Ahh, não não. Não tenho nada com o escritor.
- Quem é ele?
- Lembra do cara que me deu um bolo?
- Hum... - ela obviamente não lembrava.
Tentei pensar em uma referência melhor.
- Puxa, foi um cara que eu gostei bastante de sair...
- Hum...
- Já sei! Lembra da história da bostinha?
- Lembro! - ela respondeu contente porque finalmente tinha se encontrado.
- Ele é o cara da bostinha! - eu disse rindo, mas algo no ressoar do riso, reverberou dentro de mim.

Você é. O. Cara. Que. Me. Mandou. Um. Emoji. De. Bostinha. Caramba!

Às vezes eu esqueço dessas merdas.
Ilustração: Jenny Yu

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Nordestinah (Leituras de Agosto: parte 2)



Das leituras a que me propus para agosto, faltava comentar apenas a do livro Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. Todos que me recomendaram esse livro foram unânimes em afirmar que o livro era ótimo e que a leitura era uma delícia. Não se propunha a ser um livro difícil, nem um tratado sobre racismo ou feminismo, mas um livro de ficção com direito a romance-romântico e tudo. No entanto, não quero falar sobre isso. Enquanto lia o livro, ia apenas mergulhando em uma rede de divagações _novas ou já velhas conhecidas_ à medida em que ia aceitando o jogo da personagem Ifemelu de tirar as situações da sua condição de familiaridade e lançar um olhar de estranhamento sobre elas.

Seu outono da semisegueira tinha começado, o outono das perplexidades, das experiências que teve sabendo que havia camadas escorregadias de significado que lhe escapavam.

Nordestinah...


Tenho algum receio de que alguém possa achar que minha intenção é insinuar qualquer comparação entre o racismo e a xenofobia. Não é. Mas esse exercício de lançar um olhar de estranhamento para o cotidiano, durante a minha leitura, fez com que eu me pegasse muitas vezes me identificando com algumas situações de desconhecimento ou surpresa que a personagem _que vou descrever como negra nigeriana nos EUA_ viveu. Cheguei a comentar com amigos sobre algo que, atualmente, já quase passava despercebido para mim: a diferença de hospitalidade. 

Quando Ifemelu chega aos EUA, espera encontrar uma tia saudosa e uma recepção calorosa, mas encontra uma tia mal-humorada e um tanto chateada por ter tido que ir buscá-la no aeroporto. A primeira vez que vim para São Paulo, vim sozinha, para fazer uma prova. Um amigo da minha mãe ia me hospedar em sua casa, mas devido ao horário de chegada do meu voo, ele não poderia me buscar no aeroporto. Assim, me passou o endereço para que eu pegasse um táxi. Claro que não falei para ninguém, mas a perspectiva de chegar em uma cidade desconhecida, não ter ninguém me esperando e de ter que procurar por um endereço sozinha, me aterrorizava. Mas a instrução para pegar o táxi tinha sido passada com tanta naturalidade, que acreditei que não haveria nenhum problema. Desde então, todas as outras vezes em que vim para São Paulo, sempre fui do aeroporto para o meu destino sozinha, mesmo quando estava hospedada na casa de amigos que tinham carro e poderiam ter ido me buscar. Mas por que eu daria esse trabalho aos meus amigos? Não acho que aqui as pessoas sejam mais insensíveis, mas tem algo da vida em São Paulo, ou em metrópoles, que faz você achar que não faz sentido incomodar alguém desnecessariamente. Mas, em São Luís, nunca pareceu desnecessário ir buscar e deixar os amigos no aeroporto. Lembro que quando uma amiga estava indo fazer uma viagem para a África do Sul, cheguei a perguntar se ela queria carona e ela me avisou que outra amiga tinha pedido para levá-la. PEDIDO! Nos meus primeiros dias em São Paulo, lembro que meu maior contato era o meu melhor amigo, que já morava aqui há um semestre, e que muitas vezes me vi um pouco ressentida por ele não me acompanhar ao ponto de ônibus às 22h. Talvez ele só descubra que senti isso ao ler esse texto, pois nem sempre verbalizava devido a essa consciência de que meus hábitos não faziam tanto sentido lógico nesse novo espaço.

No livro, Ifemelu relembra um dia em que suas colegas de apartamento a convidaram para jantar, mas, ao final do jantar, elas pegaram a calculadora e começaram a dividir a parcela que cada uma deveria pagar. Tenho 26 anos e, só muito recentemente, alguns amigos começaram a entrar na categoria “bem-sucedidos”, então, não me espanta tanto essa prática entre pessoas da minha idade. Mas, ainda assim, se alguém te falasse “vamos comer uma pizza?”, em São Luís, em geral ela estava dizendo que ia pagar pela pizza.

Não falo aqui de nenhum ressentimento. Somente disso: de como os sentidos se deslocam sutilmente sem que, no caso do Brasil, precisemos mudar de país.


E mulher, branca, classe média, acadêmica


Eu não poderia falar de Americanah como se fosse só um livro que fala de um estranhamento de estrangeiro em outro país. Talvez não tenha me surpreendido tanto com algumas coisas porque estou em um meio em que o racismo não é negado (inclusive é sempre bom exemplificar) e por ter tido contato com pessoas que estudavam isso e compartilhavam algumas reflexões. Mas o livro parece ser perfeito para o nosso tempo por ter muito a cara da internet _na qual eu navego, pelo menos. As minhas redes sociais estavam descritas ali: a crescente individualização da representação e a multiplicidade de opressões. 

Não posso, por exemplo, contar uma história de opressão direta que tenha vivido em São Paulo por ser nordestina _como alguns amigos e professores poderiam_ em grande parte, por ser branca, classe média e estudar em uma universidade pública (fiquei em dúvida se deveria escrever meu gênero aqui). Talvez por isso, ninguém tenha me acusado algum dia de ter deixado o Nordeste para vir “roubar” o emprego de alguém. E, aqui, não estou querendo ser dramática _ou vou ser acusada de vitimização ou xenofobia reversa! 

Talvez o meu pior momento de nordestina-em-São-Paulo tenha ocorrido quando peguei um ônibus na USP e o moço que estava sentado ao meu lado, conversando com o motorista, defendia em voz alta que deveriam proibir os nordestinos de entrar em São Paulo. Com certeza, ele não suspeitava que a garota branca, estudante da USP, sentada ao lado era nordestina (porque ainda tem gente que acha que existe um estereótipo “nordestino” sem levar em consideração que é uma região com nove estados!), e, olhando em retrospectivo, não acho que foi grave em grande parte devido ao absurdo da ideia do rapaz, mas, na hora, me levantei e mudei de lugar porque fiquei, sim, com medo.

Apesar de ter feito os melhores amigos possíveis nessa nova cidade, acho que nunca deixei de ter consciência de que existe uma diferença. Às vezes, eu esquecia, até alguém novo se aproximar e perguntar da onde era o meu sotaque. Não acho a pergunta ofensiva, ela apenas sempre me lembra da diferença. E, talvez nunca tenha confessado isso para ninguém, mas quando estou no Sudeste/Sul, sempre me pergunto se o meu sotaque interfere, de alguma forma, na recepção da minha fala. Quando comecei a fazer entrevistas de emprego, sempre me perguntei se o meu sotaque seria um impasse. Honestamente, não sei se é e, pelas experiências que já tive aqui, tendo a achar que não. Mas acho que o próprio fato de eu me perguntar se o meu sotaque é um problema, já é sintoma de algo.

(Continua)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Minha nova newsletter fitness



Quando idealizei o E o mundo seguiu adiante... imaginava que esse seria o espaço onde eu poderia publicar e compartilhar todas as minhas experimentações literárias. E, acredito, tem sido assim até hoje. Aqui e ali, no entanto, tive muita vontade de compartilhar mais que as estórias que escrevia. Foi assim que acabei escrevendo alguns textos como Meu corpo não é futilidade, É preciso sentir dor e Linda sem esforço. Em comum, esses textos tinham não apenas o tom argumentativo, mas o fato de que falavam de um mesmo tema: o corpo. 

Por não achar que esse blog era o lugar apropriado para todas as coisas que eu pensava, pesquisava e queria trocar sobre esse outro lado da minha vida _o lado em que eu sou uma frequentadora de academia e vivo experimentando receitas malucas fitness_, eu comecei a explorar esse conteúdo em vários lugares, mas nunca me senti realmente a vontade para assumir isso como um conteúdo central de algum espaço.

Recentemente, no entanto, descobri o tinyletter. Uma site/rede que te permite enviar newsletters com toda a facilidade do mundo. Somei um + um e voilá! Criei um espaço para a Blogueira Fiteness _a presença de um "e" a mais se deve a uma brincadeira com a pronúncia_ que já habitava o snapchat @secoelho e o twitter @secomedia. Para receber meus e-mails _estou fazendo promessas mentais para que sejam semanais_ é só assinar a newsletter nesse link. Espero que gostem!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A vida, as redes sociais e o creme de espinafre

Tinha um texto para publicar aqui, mas, logo que acordei hoje, eu soube que ainda não o faria. Imaginei-o como uma massa de pão, que precisa descansar por um tempo até crescer um pouco. Então, logo me vi em busca de algo_ que não fosse rotina, tristeza e melancolia_ para postar aqui. Esbarrei com um jornal velho ao lado da cama e decidi não adiar mais aquela leitura enquanto esperava por uma ideia. As ideias para os textos, eu pensava comigo, vem de irrupções. Superfícies que se abalam, águas calmas que tremulam. As metáforas, aqui, não são mero charme da escritora. De fato, essas imagens _do incidente, do desvio, da intriga_ têm povoado a minha mente. Talvez porque a vida, nos últimos tempos, nunca passe disso: águas calmas que nem as turbulências dos pensamentos conseguem agitar.

A leitura que eu queria fazer no jornal antigo era a de uma entrevista com a escritora Elvira Vigna, indicação recente de amigos. Na entrevista, minha atenção disparou quando a autora falou sobre o mito falido do fodão, os aspirantes à matadores de elefantes. "Hoje, não: você tem uma vida banal, cotidiana, difícil. É muito mais difícil levantar da cama, difícil dizer bom dia para o porteiro e ir para um trabalho que não te satisfaz do que matar um elefante". Eu poderia assinar embaixo, Elvira. Se há algo que o home office e, mais recentemente, o desemprego me ensinaram foi que levantar da cama talvez seja a tarefa mais difícil de cada novo dia que surge. Mas, talvez eu hesitasse em concordar, por não acreditar que já podemos chamar isso de mito falido.

Em dias que me senti muito triste, na semana passada, peguei o meu celular com a intenção de falar publicamente sobre a minha dor e compartilhar (não é esse o verbo que as redes usam?). Antes de conseguir apertar o enviar, no entanto, minha mente iniciou um grande exame de consciência. Por que eu não partilhava aquilo com meus amigos, pessoas que, imagino, realmente se importam comigo? Os motivos eram vários: eles não estavam passando por nada daquilo e eu não queria preocupar ninguém ou ocupar o tempo deles com problemas que não poderiam ser resolvidos por eles, mas que eles poderiam encarar como mais uma preocupação. Mas por que eu queria tornar público em uma rede social? Isso fazia parte dessa onda de superexposição da vida privada?

Tentei não compartilhar nem metade do que me afligia. Achei que seria difícil, que talvez precisasse ficar sem utilizar as redes como um todo para não permitir que algo ficasse evidente. Mas logo descobri que as fotos de comidas, os mini vídeos e as frases irônicas _aquelas que não se levam a sério_ conseguiam marcar a minha presença em rede sem que nada fosse visível. O próprio esforço para estar presente em rede e produzir conteúdo de qualidade para os outros _meus amigos? meus seguidores?_ tem me feito pensar muito sobre o mito do fodão. É quando você se sente pior, menos produtivo e mais deslocado, que você percebe o quanto as redes sociais estão povoadas de pessoas incríveis. Elas comemoram as conquistas diárias, elas sorriem todos os dias, elas comem fora, elas adoram tomar drinks, elas contam as novidades boas do trabalho. E mesmo quando reclamam, elas reclamam de serem muito solicitadas pelos amigos ou pelos eventos; os mais normais reclamam do calor, da maquiagem, de algo que compraram, do sono, da fome... O lado positivo é realçado, o negativo é apenas um motivo para uma empatia, mas (quase) nunca revela algo das fragilidades pessoais.

Eu, na minha presença nas redes, aceito as regras do jogo. Consciente ou inconscientemente, procuro algo que tenha algum potencial de consumo e entretenimento para brindar meus contatos. De preferência, algo que ajude a construir uma melhor imagem de mim. Uma imagem bem humorada. Às vezes, penso nisso com rancor. Mas logo me ocorre que, se sempre que estivesse me sentindo desanimada, eu compartilhasse meus pensamentos, provavelmente estaria fazendo um grande desserviço às pessoas que me seguem ou leem, incentivando vários pensamentos negativos enquanto eu mesma sempre busco o contrário para mim.

Esse longo texto, portanto, não é uma defesa da tristeza, da dor e da desilusão pública. Esse texto, se aceitam a minha sugestão de definição, é um texto sobre o creme de espinafre. É uma defesa da banalidade. Porque, em geral, o que me faz levantar da cama todos os dias não são meus amigos, uma festa, uma bebida ou qualquer promessa de uma aventura. É aquele pensamento vago de que preciso fazer alguma coisa com o espinafre que comprei domingo na feira antes que ele estrague. Às vezes, é possível até mesmo transformar o espinafre em uma aventura: gravo declarações de que nunca fiz um creme de espinafre antes e de que vou usar uma couve no lugar do molho branco. As pessoas que me seguem no Snapchat (@secoelho) já imaginam se aquela receita vai dar certo ou não. Se eu gravo mais alguns vídeos de 10s falando do andamento da receita, tenho a impressão de que transformo a banalidade em algo que é consumido, assistido e ressignificado. Mas a única espectadora de "cozinhe a couve até ficar bem macia" e "espere a água ferver para branquear o espinafre" sou eu. E essa é a parte mais importante da vida. É assim que 24h vão sendo silenciosamente consumidas. E talvez não faça nenhum sentido dar um final para esse texto. Talvez não seja possível acertar no sal. Algo sempre vai ser selecionado, pré-codificado, algo que não é a banalidade do creme de espinafre. Mas eu bem que gostaria que fosse.


O espinafre do Pinterest parece melhor que o meu

terça-feira, 7 de julho de 2015

O currículo mais sincero do mundo

Oi, tudo bem? Então, eu estou procurando um emprego e, suponho, você está oferecendo uma vaga (ou você é só alguém que clicou em um link do facebook, mas vou fingir que você pode ser um empregador). Por isso, estou te mandando esse texto para você dar uma lida.

Esse é o meu currículo. Não aquele convencional, pois esse eu já tive que cadastrar em um monte de portais e, se você procurar no linkedin ou no lattes, é bem fácil de achar (vou botar o link só pro caso de você estar com preguiça, ok?). Bom, esse é um currículo que tem o objetivo de ser sincero.

Esquece minha experiência profissional! Ela não é lá grandes coisas mesmo e eu sempre tenho a impressão de que ela não diz nada sobre mim. Porque eu nunca fui muito de procurar as empresas dos sonhos, sabe? Eu peguei o que apareceu e que me permitia fazer o que eu fiz até agora: um mestrado. Pois é, tenho um mestrado e uma pesquisa com jornalismo investigativo, mas se a sua vaga não é para professor (que, aliás, é o meu objetivo profissional), você não deve estar muito interessado nisso.

Essa era a hora em que eu tinha que dizer o que eu sei fazer. Mas para falar a verdade, eu acho bem prepotente dizer EU SEI escrever. Talvez eu não saiba. Nunca achei que sabia o suficiente, para ser bem sincera (já que estamos trabalhando com sinceridade). Mas é o que eu gosto de fazer. E mesmo que você queira me obrigar a escrever um monte de coisa sobre assuntos que não me interessam, ainda assim acho que pode ser legal e que eu provavelmente não seria aquele funcionário que tentou se matar quando ouviu o despertador pela manhã.

Não sei se escrever seja uma capacidade que ainda encha os olhos de alguém. Porém, quando passo um tempinho lendo as minhas redes sociais, até acho que, sim, tem seu valor. Tenho um blog, mas ele nunca fez sucesso. E ele é bem pessoal, na verdade. O outro blog, que eu comecei com três amigas e que as pessoas (ele tem fãs no facebook!) diziam que gostavam bastante, está desatualizado. Eu comentei hoje que iria atualizar o calendário de postagens, mas não consegui porque tinha que cadastrar meus dados em vários portais de emprego e redigir esse currículo (olha o capitalismo sendo nocivo aí, gente!).
 
 
Não sou famosa, mas até tenho foto com pessoas que são (Fonte: Instagram @secoelho).

Eu não sou a rainha da revisão. Eu deixo passar coisas no meu texto, às vezes. Mas acho que isso é um pouco normal. Na leitura do texto do outro (é sempre mais fácil julgar o outro, né?) no entanto, eu consigo ter um pouco mais de sucesso. E se eu tiver dúvida quanto a alguma regra ou algum porque, por que, porquê, acho que, hoje em dia, é bem aceitável fazer uma pesquisa. Prometo pesquisar sempre se você me quiser como sua revisora.

Aliás, pesquisar e aprender talvez sejam outras duas capacidades minhas. Elas contam? Espero que sim.

Pois, fora isso, minha mãe reclama que eu não sei fazer muita coisa na cozinha e meu roomie reclama que eu não presto atenção nele quando estou com o celular na mão (mas isso só mostra que me concentro muito profundamente em uma coisa!). Com certeza as pessoas reclamam de mais coisas, mas não acho que a gente é no trabalho exatamente o que a gente é em casa, então eu vou parar por aqui.

Voltando para as capacidades, acho que é interessante notar que as pessoas me acham "engraçada". Algumas dizem que gostam bastante do meu snapchat. Isso nunca me rendeu dinheiro, é uma pena. E eu não gosto de dizer que sou engraçada e que tenho um texto descontraído em entrevistas pois, aparentemente, as pessoas começam a esperar que a minha próxima fala seja assustadoramente engraçada. De acordo com um grande amigo, eu nunca sou engraçada quando tento ser engraçada. Então, já dá para imaginar o desastre.

Outra coisa que aprendi recentemente e na qual acho que estou ficando realmente boa é em fazer abdominais. Essa é uma informação desnecessária e que não serve de nada para você, mas tem me servido bastante para fortalecer o tronco. Isso me deixa tão feliz, que achei imperativo incluir aqui. Pensando bem, podemos até considerar que isso está mudando a minha postura profissional (Rá! Eu disse que não podia tentar ser engraçada).

Obrigada pela atenção (isto é, se você tiver lido, caso contrário, não agradeço), espero não ter abusado, espero que você realmente tenha uma vaga, espero que você goste de mim e me dê um emprego e me dê um salário e que ele possa pagar meu aluguel e meu whey protein que eu já tive que cortar (desculpa, fui longe demais),
Seane Melo.

(PS: Prometo nunca escrever uma frase cheia de orações conjugadas enquanto trabalhar para você).

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Enquanto o like não vem


Ultimamente – por motivos de estresse e apreensão – tenho pensado muito em falha, em reprovação e rejeição. E, novamente, volto a pensar em como todas essas coisas podem estar intimamente ligadas com uma visão do mundo muito egocêntrica que biologicamente e socialmente parecemos ser impelidos a construir.

Não vou falar grego. Vou direto ao ponto. Sempre me amedrontou ou, antes, me envergonhou a minha incapacidade para lidar com reprovações. Em algum momento da vida, achei que tivesse aprendido da única maneira que se aprende, claro: sendo reprovada no que eu considerava ser um dos momentos mais decisivos da minha vida, me recompondo, tentando novamente e finalmente conseguindo a aprovação.

Mas aquele aprendizado aos poucos foi sendo apagado pelo novo fato de que agora eu tinha chegado onde eu queria e me considerava uma pessoa um pouco melhor depois da experiência. No entanto, comecei a pensar sobre algumas pequenas provações do dia a dia e percebi que as reprovações acontecem todos os dias. E elas não consistem sempre em resultados de processos seletivos. Elas estão, com frequência, nas opiniões das pessoas com quem você se relaciona e nos feedbacks de algo que você fez/produziu.

E sempre me deixou estarrecida o peso que um comentário negativo sobre um texto meu assumia. Ou uma omissão e uns likes que não vieram. Não estava bom? Não conseguiram entender a minha proposta? A proposta não estava clara ou o problema era com o lado de lá? Não tinha escolhido a palavra ou o filtro certo? Não era uma boa foto? Talvez eu não devesse ter falado sobre isso? Muito superficial? Muito equivocada? Muito pedante?

Por mais que eu ache essa ideia ridícula, percebi que intimamente eu estava sempre esperando por um reconhecimento, uma aprovação das minhas atitudes e das minhas ideias. Algumas aprovações, claro, pesavam mais na balança. Mas, em um mundo virtualmente partilhado e agigantado, a aprovação quantitativa também fazia muita diferença.

É óbvio que tudo isso estava muito ou completamente relacionado com uma forte insegurança (no meu caso). Mas admitir isso e apenas julgar que eu estava bem e a vida seguia sem que eu tivesse que dar ouvidos para algumas críticas bem pesadas não parecia me levar a nada. Sempre tentei levar em consideração o que me diziam, especialmente, se era algo negativo. Por mais que nem sempre tenha conseguido tirar um ensinamento disso (às vezes não tem ensinamento nenhum por trás mesmo), posso garantir que engoli a decepção que batia no peito e tentei olhar muitas críticas com um olhar menos defensivo ou contrariado.

Mas até isso não era aprender a lidar com as reprovações. Era apenas aceitar que eu nunca seria aprovada por todo mundo que estava ao meu redor e, principalmente, era tentar me confortar com o pensamento de que algumas dessas reprovações poderiam me levar a ser uma pessoa/profissional melhor. Mas essa compreensão de “ser uma pessoa melhor” era em geral a ideia de que eu poderia algum dia chegar a um reconhecimento unânime e inquestionável. Entretanto, hoje acho que “aprender a lidar” com as reprovações e as rejeições é justamente abrir mão dessa ideia tão sólida do “eu”, é tentar não me pensar como tão distinta de todo o resto.

Mas como deixar de pensar a partir desse eu? Eu não sei. Essa é a resposta que eu procuro. Alguns dizem empatia. Por que tentar se colocar no lugar dos outros pode nos ajudar a destruir algumas barreiras egocêntricas. A resposta também pode estar em uma expressão bonita do escritor Alex Castro: “praticar a não-opinião”. Isto é, tomar cuidado com os juízos que você faz, com as certezas que você leva, especialmente, com a certeza de que você sabe alguma coisa.

Gosto de todas essas propostas. Mas tenho me apegado bastante a uma, que li em um livro de zen budismo (SIM! HAHA), e me veio na cabeça depois de ter lido um texto do Chez Noelle sobre o mundo da moda e como às vezes é preciso apenas se lembrar de que ter chegado a um lugar muito desejado não torna você melhor, não te distingue dos outros. A proposta é o reverenciar, se prostrar.

Se prostrar diante de quê? De tudo. Se prostrar não parece com se humilhar? Não. Diz respeito a quebrar a barreira que cria uma distinção, que separa você de qualquer outro ser existente. Confesso que, às vezes, tenho medo disso ser uma impossibilidade. Mas, como exercício eventual, ele já traz um grande conforto. Quando as coisas se avolumam – chegam as críticas a sua pesquisa, a pessoa com quem você quer sair não parece interessada em você ou ninguém parece se interessar realmente por você, alguém na internet é absolutamente cruel em um comentário contra você – você simplesmente respira fundo e lembra que o mundo não é sobre você. Ele não começou a girar no momento que você abriu os olhos ao amanhecer. Você é parte daquilo. 

Só mais uma parte.


Eu sou água! Eu sou água!


A foto que hoje ilustra essa postagem é um presente da Bárbara Carneiro, que sempre me mata de amores com as fotos (e os textos!) cheias de amor dela.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Meu Facebook ainda lembra de você

Sempre achei que a sua presença constante no meu Facebook se devia às inúmeras vezes em que visitei o seu perfil para ver se não tinha algo novo, algo sobre mim. Mas, ontem, mais de um ano depois da última vez que trocamos qualquer palavra, comecei a digitar um nome na busca e a sua imagem novamente apareceu nas sugestões.

Antes, eu costumava reparar nisso com frequência e achar graça. Testava digitar a primeira letra do teu nome, só para ver se você era a primeira sugestão. Era. Testava, então, a primeira letra dos teus sobrenomes e depois apenas qualquer letra do teu nome, e sempre tinha você como primeiro resultado. Mas fazia um ano que o seu chat não registrava nenhuma mensagem nova. E um ano que o teu feed era bloqueado. Mais de um ano que não havia interação por curtidas e comentários. Um ano que eu tinha me acostumado a te esquecer.

Eu tinha uma teoria de que o Facebook "previa" as pessoas por quem a gente se apaixonava. Lembro que, certa vez, me interessei por um rapaz com quem só conversava na faculdade, nunca no chat da rede social. Mas, sem que eu escolhesse nenhuma preferência, ele aparecia na minha página. A fotinho dele sempre aparecia quando eu visualizava o meu perfil, na seção de amigos. E o Facebook gostava de me dar o doloroso aviso de que a bolinha dele estava verde, mas não era comigo com quem ele estava conversando às 2h da manhã.

Mas no seu caso, não havia nada de misterioso. O Facebook devia saber que, quando estávamos nos conhecendo, eu visitava seu perfil e lia todas as suas postagens, só não sabia que eu morria de vontade de curtir. Devia saber, também, que eu meio que conhecia todas as suas fotos e tinha salvado a minha preferida. Ou o Facebook podia ter simplesmente contabilizado a quantidade de vezes que te chamei no chat.

O que não dava para explicar era essa insistência depois de mais de um ano sem registros. Esse algoritmo não apagava o passado? Porque ele lembrava do quanto eu gostei de você, mas não lembrava de todas as mensagens que mandei e ficaram sem resposta? Por que ele não lembrava que nunca era você que me procurava? Porque ele não lembrava que você nunca curtia minhas fotos e minhas postagens? Porque ele não podia esquecer todas as tolices e esforços que eu fiz por você?

Senti raiva do Facebook! Porque ele era tão burro? Porque ele insistia no que não tinha futuro?

Então, me peguei imaginando o quê o Facebook não saberia de você. Diverti-me com a ideia de imaginar um algoritmo que quisesse dar uma segunda chance para nós dois. Que achasse que tínhamos enfiado os pés pelas mãos. Um algoritmo que ainda visse alguma esperança em simplesmente não termos deletado e bloqueado um ao outro. Até que seria bonito escrever sobre esse amor de Facebook. Talvez fosse algo que você finalmente curtisse.
.
Por outro lado, talvez, houvesse algo de mais prático nesse algoritmo de memória eterna. Talvez fosse preciso me lembrar do que eu fiz. Criar um algoritmo irônico para me fazer repensar. Tirar uma onda. Desses investimentos que a gente faz. E se pega refazendo. Ou querendo refazer.

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