quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Anexo ao Guia do Sexo Verbal: Sobre a pepecância ou jebificação

Quando este Guia primeiramente começou a ser construído em 2012, nosso intuito era notadamente o de mostrar ao leitor que existia bastante diferença entre "quero te chupar”, “quero chupar tua buceta e me lambuzar” e “quero fazer oral na tua perereca”. Não queríamos ser autoritários, mas acreditávamos que a segunda opção era a que mais umedecia, ainda que todas pudessem ser usadas em contextos apropriados. 

O Guia foi de grande ajuda para milhares de leitores. Homens nos escreveram contando que antes do Guia tinham receio de encarar a buceta no dirty talk. Enquanto nossas leitoras demonstraram alívio frente à nossa posição completamente hostil à rola (Rola continua não rolando, gente).

Mas o Guia não pode mais se furtar às recentes manifestações de caráter sexual que tomaram de conta do meio digital. Ela chegou com a onda do fenômeno zueira (cujo estudo ainda exige pesquisas acadêmicas mais aprofundadas) e, nada silenciosamente, penetrou nossa intimidade. Irmã mais nova e ainda não tão foneticamente rebuscada da nossa conhecida perereca , a pepeca (pepeka ou ppk) já convida o nosso imaginário a pensar em sapeca. No equivalente masculino, anteriormente, poderíamos tentar mesmo igualar a função da pepeca, no vocabulário sexual, ao da piroca amiga. No entanto, seu desenvolvimento e proliferação na internet gerou um fenômeno completamente novo que quase destruiu o Guia do Sexo Verbal: a pepecância ou jebificação.

Pepecância é o nome dado ao fenômeno de implantação da ironia na conversa sexual. É a safadeza em cima do muro, sem classificação indicativa.

Eu vou comer a tua ppk até me cansar” – A pepeca permite que se tenha menos cautela na hora de saber o que falar. Pode ser uma brincadeira (Claro que eu tava brincando! Olha só como eu escrevi...), pode ser um convite caliente. Depende se colar.

Eu quero é ppk!!!” – A pepeca permitiu uma aparente liberação da manifestação de desejos sexuais. Você quer sexo, umas metelas, umas chupadelas? Pode tudo! Contanto que seja com a pepeca (ou seus companheiros de zueira).

Que ppk linda *.*” – A pepeca é lindinha e gostosa. A buceta é só gostosa. Pepeca conversa, sente saudades e sai do banho cheirosinha. Buceta fica molhada.

Meus amigos gostam é de jebas” – A pepeca danadinha também abriu a caixa de pandora dos nomes esdrúxulos para o sexo oposto. Pintas (sim, isso mesmo!) e jebas estão oficialmente liberadas para a sacanagem! (Mas rola NÃO! Nem pensem nisso).

A pepecância ou jebificação do sexo verbal não é tudo. É apenas parte de uma grande diversificação do humor e das formas de se expressar, que torna difícil a tarefar de recomendar nomes e verbos (Mamar não, gente. E vai dar estocadas em outro lugar!). Mas, sobretudo, se olharmos o fenômeno no contexto apenas do sexo falado podemos observar como se opera um processo de mascaramento do tabu. É possível falar da depilação e da cor dela, do que se quer fazer com ela e do que se quer que seja feito com ela, com a condição de que...ERA BRINCADEIRA, GENTE!

Portanto, nós, do Guia do Sexo Verbal, defendemos que ainda não podemos deixar a buceta na mão. Ela começou a sacanagem e ela leva isso a sério. E é ela que, juntamente com o pau, mantém a fronteira entre o que pode ser falado no ouvido e o que pode ser postado no twitter.

Ps.: Tem alguma dúvida? Pode enviar para a gente via comentários! :)




terça-feira, 5 de novembro de 2013

Àqueles que não merecem meu amor

Quando você disse que não merecia meu amor, apenas virei para o lado e sorri com desdém. 

Naquele momento, eu queria ter perguntado: você acha que o meu amor vale mais?

***

Vale mais que o Oscar, o Nobel, o dinheiro e todos os prêmios que voce fantasiou um dia ganhar? 
Vale mais que o sucesso, o reconhecimento ou a riqueza que todos desejam para si mais ou menos secretamente? 
Vale mais que a família tradicional, a esposa bonita, os filhos talentosos e o bom emprego que você queria encontrar no seu futuro? 
Ou mais que as viagens a realizar e o grande conhecimento que você queria possuir? 
Vale mais que toda a felicidade que você aprendeu a desejar desde que teve idade para pensar no futuro? 
Vale mais que todas essas coisas que você intimamente acha que merece?

Não se faça de rogado. Não diga que não merece nada. Você acha que merece tudo isso apenas por ser a pessoa boa, que você mais profundamente que qualquer outro sabe que é. (Afinal, todo mundo é bom na sua própria perspectiva. Por que no nosso mundo conseguimos justificar qualquer ação ruim que um dia possamos ter feito). 
Vamos... Você é melhor que muita gente! Vai dizer que nunca pensou isso?
E agora? 
Ainda acha que esse amor, que você acha que conhece, é algo tão longe do seu merecimento? 
É superior até mesmo à felicidade?
Não, né?

***

Mas, após de um minuto de pensamento, eu apenas resumi. Com outras palavras, exclamei que não existia covardia maior que culpar uma suposta superioridade do outro:

- Então vai se fuder!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O erro

– Ele é que devia ser um louco! – Ele disse sem acreditar na história que ela acabara de contar.
– Você acha mesmo? – Ela perguntou insegura, mas se sentindo já um pouco melhor por dentro. – Estou me martirizando há tanto tempo por isso.
– Você realmente acha que errou?
– Não e Sim. Talvez eu devesse ter imaginado... que estava mandando todos os sinais errados...
– Não é bem assim, vamos. Relaxa, ele é que deve ser louco.

Ela sorriu. Começou a gostar dele. Há muito tempo não encontrava alguém que conseguisse tirar o peso das suas costas.

Beijaram-se.

Ela sorriu. Tinha esperanças que ele fosse a resposta para tudo e a solução para os seus problemas. O fim dos dias de remorso.

Transaram.

– Tem certeza que ainda não me acha louca? – tentou parecer irônica.
– Não. – Ele sorriu e deu um beijo no braço esquerdo dela, que ainda repousava ao seu lado na cama.

Você pode falar isso pra ele?


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Sofrimento não vale


Oi, Juninho. Aqui é a vovó. A vovó tá aqui, bebê. Desculpa só ter chegado agora. Lembra que eu disse que não podia faltar o trabalho? Desculpa, meu filho. Eu não sabia que não ia mais te ver. Juninho, tá tudo bem com você agora? Você parou de sentir dor? Papai do céu tá cuidando de você? Meu filhinho, tenho certeza que você vai ficar bem. A vovó é que não sabe como vai ficar sem você aqui. A vovó te ama tanto, meu filho. Ela nem acredita que você...

Ai, Juninho, sabe por que a vovó tá querendo conversar com você? Porque ela precisa que você entenda, meu filho, que ela te ama. Todo mundo aqui te ama. Tua mãe não sabe o que fazer. E o teu irmão não sabe o que aconteceu, mas não para de perguntar por você. Juninho, você só tinha dois anos, Meu Deus! Já vivi muito nessa vida, criei tua mãe e teu tio com um salário mínimo. E depois acolhi a vizinha lá em casa junto com a filhinha dela. E depois veio o teu irmão e depois você, Júnior. A gente é pobre demais, meu filho. Mas a nossa família sempre se virou. Eu não sei por que você, logo você, meu bebê, teve que...

Juninho, a vovó te ama. Não esquece disso, tá? Talvez a gente não tenha como te enterrar, mas a gente te ama. Meu filho, eles tão pedindo 3 mil reais pra te enterrar. Mas, Júnior, se a gente tivesse esse dinheiro, talvez você estivesse aqui...  E não dá pra fingir que vamos conseguir pagar isso em mil parcelas. A gente precisa de cada centavo do meu salário, meu filho. Tem o teu irmão, tua mãe, teu tio e a tua vó que já tá ficando velha, meu filho. Todo mundo diz que tempo é dinheiro, Juninho. Mas acho que só tempo mesmo. Porque o sofrimento da tua vó, meu filho, não vale nada.  Júnior, não sei se você tá entendendo. Júnior, nós vamos deixar teu corpinho aqui. Júnior, a gente te ama...


Mas a gente não pode te enterrar. 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O amor é meu lugar

Talvez você tenha estranhado o título dessa postagem. Talvez você simplesmente não tenha entendido e começou a ler apenas para se certificar de que é mais um texto dramático por mim. Não, este não é um texto literário e não pretende ser ficção (ainda que nada não possa não o ser).

Há algum tempo, a questão das distâncias e das alterações das noções de espaço me fez iniciar algumas reflexões. Nada importante ou profundo, aviso. Na época, eu me perguntava sobre uma suposta necessidade de pulverizar ou negar espaços físicos que antes estavam fixados por relacionamentos pessoais. Eu explico. Sabe aquele garoto por quem você foi apaixonada que te levou para comer um doce em um restaurante japonês específico? Ou aquela lanchonete que você e seu ex-namorado frequentavam?

Naquela ocasião, a única coisa que consegui pensar a partir dessas perguntas era que, apesar de parecerem muito instáveis, os nossos relacionamentos pessoais (não necessariamente amorosos) conseguiam nos fixar e nos dar muito mais certezas que lugares físicos estáveis. Como? Produzindo sentido.

Hoje, pensando sobre um conceito de não-lugar, que, para Augé, seria o padrão desse nosso espaço redefinido, descobri que o amor é um lugar. Sem querer me estender sobre um conceito teórico, vamos apenas pensar o não-lugar como o lugar da circulação. É o aeroporto, as vias, o ônibus, o caixa de autoatendimento, etc. O não-lugar é o espaço onde você não é o que é, não existe identidade no movimento. Você se identifica apenas para embarcar. Na circulação, não se estabelece história.

A questão é: o não-lugar não se restringe àqueles exemplos diretamente relacionados com transporte. O não-lugar é qualquer lugar, dependendo da perspectiva.

E onde entra o amor? Se nós concordarmos que atualmente passamos grande parte da nossa vida transitando (porque essa é a concretude do espaço, afinal) e nos estabelecendo apenas temporariamente em não-lugares, cabe perguntar quais espaços são esses em que escrevemos nossa história e nossa identidade.
O próprio pensador que concebeu o não-lugar adverte que não existe um não-lugar absoluto. Existe algo que sobrevive ao trânsito. E eu gosto de acreditar que é o amor. Que são nossos pais (não apenas pelo parentesco), nossos amigos e nossos relacionamentos amorosos. São eles que estipulam distâncias e tempos. Somente em relação a algo nos identificamos. E essas relações podem ser tão fugazes quanto uma viagem, mas existe algo nelas que nos marcam de outra forma. São essas relações que conseguem transformar o exemplo perfeito do não-lugar, o virtual, em um lugar sólido e familiar.

Talvez isso nos ajude a entender melhor por que o fim ou a ausência de um relacionamento almejado, nos deixe tão desnorteados. Como se apenas passeássemos por espaços, sem conseguirmos nos fixar. Sem termos a impressão de estar construindo algo. Muitas vezes, nos sentindo também incompletos. Às vezes podemos supervalorizar o relacionamento amoroso (principalmente). Acreditar que ele pode completar tudo que acreditamos incompleto é um erro. Mas, sem dúvida, ele é um ponto de contato entre uma individualidade e outra. É um ponto de referência, um espaço e um tempo. Quando em uma vídeo-conferência, dois rostos cansados se encontram para terminar o dia com boa noite’s.

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