quinta-feira, 9 de agosto de 2007


Era uma vez uma garota clara e loira com uma vida normal e desejos iguais aos das outras garotas. No seu quarto havia uma grande janela, limpa e brilhante. Um dia, sentada na sua cama, parou para contemplar a vizinhança: a bonita rua de pedras e todas as casinhas de madeira parecidas que davam uma incrível sensação de aconchego. Sem falar das árvores com folhas amarelas que completavam a visão.

Eis que invadiu sua visão e sua melancolia, uma curiosa silhueta. Apenas uma pequena sombra com cabelos esvoaçantes... Fitou aquela sombra como se não houvesse mais outra coisa no mundo, a cabeça rodou, delirou e olhou, mais uma vez, mesmo que em nenhum momento tivesse parado de olhar.

A silhueta captou aquele olhar, e poderíamos dizer até que foi isso e não uma brisa gelada que fez todo o seu corpo vibrar, voltou-se para janela que escancarava aquele olhar tão belo e tão...conhecido. A silhueta era um garoto. Ele respirou fundo e andou até a janela, parou a menos de um metro e sem tentar exprimir uma palavra ficou lá por meia hora conversando com aqueles olhos.

No dia seguinte os amantes repetiram o mesmo encontro, entre a mesma janela e no mesmo horário. Prosseguiram assim por um mês, dois e mais... Sem nunca trocar uma palavra, sem nunca arriscar...

E o inverno chegou para embassar aquela janela, e a poeira ali já fazia residência, mas a menina não limpou...deixou que o vento e a sujeira cobrissem todo o vidro, antes tão limpo e brilhoso. Restava ainda uma fresta e por ela, a menina percebia os olhos do garoto, todo dia, no mesmo horário. Até que a cruel poeira a cobriu por inteiro, mas a menina continuou ali, todos os dias no mesmo horário e jurava sentir a presença do amado.

O inverno ficou mais rigoroso na sua janela, cada vez mais frio.

Um dia entrou no quarto e encontrou a janela limpa, seu coração disparou, ela poderia enfim ver aqueles olhos sedosos e esquivos novamente, esperou pela hora com o coração na mão e ela tardou, mas chegou:

As árvores mudavam agora o tom da visão, estavam verdes e convidativas, mas isso não importava, o que importava era aquela forma brilhante cortando as ruas, era ele, ela sabia...
Ele andava distraído, nem parecia saber para onde ia, porém inconscientemente parou na rua no ponto que ficava em frente a casa da garota.

Ela esperou, mas ele não veio.

Voltou as costas para aquela janela e se dirijiu a porta da casa que ficava em frente, tocou a campainha e a porta se abriu. De lá saiu uma garota, trocaram algumas palavras e prosseguiram pelo resto do caminho de mãos dadas.

E a garota nunca saiu da janela...

4 comentários:

Enzo disse...

voce escreve bem...
obvio que a compreensao do post é somente de qm escreve (ou alguem mais)
msm assim, ficou legal, da pra perceber algumas analogias

gato de Schrödinger disse...

Seane, acho que eu já te disse o quanto tu escreve bem, não disse?
Esse teu pequeno conto exprime de maneira triunfal o verdadeiro significado da expressão "escrever bem": além da imaginação bastante fértil e ousada, um estilo único, casado com o sutil emprego de certas "técnicas" mais "contemporâneas", alá Lemony Snicket ou Terry Pratchet, de forma encantadora. Percebem-se, claro, os efeitos negativos que a juventude, inexperiência e o excesso de influências emprestam ao teu talento, mais nada que o tempo não vá, fácil e perfeitamente, lapidar com os anos vindouros.
Enfim, excelente texto.

(E, sem querer te comprometer, mas tbm ficou bem óbvio pra mim que essa menina na janela, que permite que a poeira e o tempo enegreçam a janela que lhe dá visão ao seu amado confunde-se com a dona deste blog.)

Beijo.

amanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
amanda disse...

Mais um blogg para expor idéias triunfais como as tuas.
Gostei bastante...
E digo mais: arriscarei um poeminha tosco, parecido com o da nossa 6° série..mas que pra mim tem um valor imenso..
beijos minha eterna amiga

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